Pai não é mãe

Vivi, aos 10 anos, 10 meses e 26 dias, finalmente fez as contas e descobriu que… Papai Noel não existe.

Na verdade, se eu tivesse me mantido firme e feito cara de “o que você tá falando? tá louco?”, ele seguiria acreditando. Duvidando um pouco, mas acreditando.

Acho – acho, não, tenho certeza – que ele ficou triste, desnorteado. Ao mesmo tempo que ele queria nos encurralar, esperava que, como sempre, eu viesse com uma justificativa mirabolante, algo incontestavelmente real que provasse que sua suspeita não passava de loucura. 

Mas, ele já tem quase onze anos, né? Tava na hora de passar pro lado de cá. A gente já estava esperando por este momento há algum tempo. Tava ficando esquisito, entre os amigos incrédulos, ele ser o único que defendia o bom velhinho.

Bem, na verdade, na verdade, se ele tivesse questionado a mim, em vez do pai, eu não teria tido coragem de matar São Nicolau assim à queima-roupa, mas pai não é mãe, né?

E foi de uma maneira tão ridícula que me deu até pena.

Hoje, chegando do colégio, Vivi abriu o armário que fica no hall de entrada e encontrou a embalagem do skate e dos protetores que ganhou do Papai Noel no último Natal. Claro que ele só encontrou essas embalagens, porque foi incumbência do pai, tirar da embalagem do fabricante e colocar os presentes sob a árvore. Claro que não passou pela cabeça do pai jogar imediatamente os resquícios no lixo do lado de fora do prédio, eliminando completamente qualquer prova do crime. Pai não é mãe. Tanto não é, que além de não ter jogado fora na hora, esqueceu do assunto completamente, por 9 meses. E aí, finalmente, Vivi, ao se deparar com aquelas embalagens da mesma marca de seus apetrechos, ligou os pontos e resolveu perguntar.

O pai, quando ouviu a pergunta, nem tentou remendar, foi logo entregando o jogo. Pai não é mãe.

Vivi entrou em casa meio transtornado e pediu para conversar em privado comigo. O que eu poderia fazer àquela altura, depois que o próprio pai já havia posto as cartas na mesa? Não fazia mais sentido manter a história. Agora sim, estaria mentindo – antes, não :P. Antes estava apenas me ocupando em construir memórias. E foram tantas as voltas que dei nesses meninos…

Mas agora, Vivi se graduou. No more Santa for him. Tô triste.

O pior foi ver o olhar de decepção no rosto dele: “então tudo foi uma grande mentira?? Você mentiu pra mim por todos esses anos? E o Cheeky? E todas as cartinhas? E a água do Polo Norte?”

Yup, tudo parte da história.

Expliquei pra ele, que não deveria encarar como mentira, mas como parte importante da magia da infância. Expliquei também que ele estava terminantemente proibido de contar pro irmão! Que ele ainda era muito pequeno e deveria descobrir sozinho, no momento certo, assim como foi com ele.

Na sequência, Vivi quis saber quantos anos eu tinha quando meus pais me contaram, se eu era mais nova ou mais velha que ele. Ficou meio decepcionado quando eu disse que ninguém me contou, que como ele, eu liguei os pontos, só que eu era mais nova. Na verdade, não lembro bem com quantos anos foi, mas lembro que não foi traumatizante, foi bem tranquilo, natural até.

Mas o olhar do pobre Vivi permaneceu perdido. Olhando pro nada, ele disparou: “e eu ainda teimava com meus amigos que papai noel existe sim…. como fui bobo!” Bobo, não, meu filho, você é criança, uma criança com uma infância feliz e memórias maravilhosas – disse a ele.

Ainda inconformado, Vivi foi pro seu quarto estudar, mas não demorou a reaparecer e fazer outro questionamento: “mamãe, e a fada do dente, também é mentira?” Ao que o pai se adiantou de maneira bem simplificada, “Vivi, tá tudo no mesmo pacote”.

Olha, eu não sei se fico feliz pela inocência ou desesperada pela falta de questionamento que o levou a acreditar por tanto tempo até mesmo na fada dos dentes, ainda mais tendo uma fada esclerosada em casa, que nos últimos tempos, não dava uma dentro, hahaha. O último dente levou umas três noites pra sair de baixo do travesseiro e quando saiu, as moedinhas não apareceram. Fada safada, rs

Mas agora acabou. Aos quase onze anos, Vivi se despede da mágica do Natal. E dos dentes perdidos. E do Coelhinho da Páscoa… É oficial: ele está crescendo.

Agora será mais difícil me comprometer com as mentirinhas pro Nick, porque cada vez que aparecer uma cartinha do Papai Noel, ou que o Cheeky mudar de posição pela casa, Vivi estará me observando e pensando “eu sei o que você fez no verão passado”

Ai ai… vamos ver até quando a magia vai durar na vida do Nickito.

O que eu sei é que Cheeky não está nem perto de se aposentar, nem as mentirinhas maternas, porque se tudo correr bem, teremos um recomeço de tuuuudo isso em 2019.

Aquele primeiro trimestre que não termina nunca

Ainda não contamos sobre o terceirinho para quase ninguém, nem mesmo para a família. E como não foi uma gravidez planejada, ninguém nem desconfia, claro. 

Azamiga aqui de Seul também não fazem ideia, até porque tenho me escondido, evitado encontros e conversas mais particulares. Vou a almoços só com a galera e assim me protejo de uma conversa mais íntima que possa pender pra esse lado, afinal, estar com uma pessoa que vive enjoada pode levantar suspeitas. Além do mais, por eu estar constantemente enjoada, com a boca amargando, ânsia de vômito e sem vontade de comer quase nada (que não seja doce e feijão tropeiro/farofa ou torrada com manteiga – coisa de maluco? não, de grávida, rs) nem sinto vontade de sair de casa. Às vezes nem da cama, que virou minha melhor amiga nas últimas semanas. Não passo sem meu cochilo do meio do dia. A gente também já não sai mais para almoçar/jantar aos finais de semana como costumávamos e quando saímos, vou na amizade.

Os meninos, claro, notaram que a mamãe não anda muito bem e ontem chegaram a fazer cartinhas desejando que eu melhore logo – não se se somente por amor, ou para que a vida deles também volte logo ao normal, rs

Às vezes, muito raramente, me pego imaginando como será a reação das pessoas quando começarmos a contar. Surpresos todos ficarão, isso é certeza. Por que raios a Erica, aos 40, mãe de dois moleques já crescidos, morando na Coréia do Sul, onde sequer fala o básico da língua (nem o alfabeto conhece) e ainda carregando uma síndrome de Sjogren nas costas engravidaria? Pois é, eu também não sei. Obra do destino, vontade de Deus, pegadinha da vida… ou simplesmente descuido de férias de verão.

O fato é que o primeiro trimestre nunca demorou tanto a passar. Como está arrastado, meu Deus! A princípio, combinei com o marido que só começaremos a contar depois que eu completar 20 semanas, quando a chance de aborto espontâneo reduz sensivelmente. Afinal de contas, mesmo tendo sido uma concepção natural/acidental num momento em que eu estou (estava) super saudável, não dá para ignorar o fato de que estou no grupo de alto risco.

Mas quando eu penso que ainda estou na oitava semana, ai meu Deus… 

Vivi e os primeiros sleep overs

Os meninos já fazem sleep over faz tempo, desde bem pequenininhos, mas sempre, invariavelmente, todas as vezes na casa de amigos nossos, nunca na casa de amigos não brasileiros.

Em Melbourne, já dormiram nas casas de 4 amigos diferentes, alguns com filhos da mesma idade, outros, na época, sem filhos. E apesar de eu sempre ficar um pouco apreensiva, nunca fiquei nervosa.

Pois bem, viemos para a Coréia, onde os amiguinhos são todos da escola e, conforme antecipado, começaram a surgir os convites para playdate e, pior sleepover.

O primeiro sleepover do Vivi, foi na casa de um amigo coreano-americano, o Isaac, um menino muito educadinho e simpático. Bonzinho mesmo. Tem uma irmãzinha fofa que adora o Vivi. Já havia conversado algumas vezes com a mãe dele, que foi criada nos EUA e se mudou recentemente para a Coréia.

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Levei uma semana para aceitar o convite, mas por fim resolvi relaxar e deixar o Vivi viver essa experiência.

Mil recomendações e com o coração apertado, liberei.

E foi ótimo 🙂

Uns meses depois veio o segundo convite, dessa vez, o sleepover seria na casa do Ashu,  amiguinho indiano – bom, indiano porque é de família indiana, mas já nasceu em solo estrangeiro e nunca morou na Índia.

A mãe, que eu já conheço há bastante tempo, organizou um jantar indiano e convidou as mães e irmãos, depois voltamos pra casa, deixando o Vivi para sua segunda experiência. O interessante desses sleepovers é que são super internacionais, né? Um mergulho em culturas diferentes 🙂

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Tirando o fato que as crianças quase não dormiram, de tão empolgadas, foi tudo bem também – bom, não sei se o pai do menino achou que foi tudo bem, porque 4 moleques barulhentos a noite toda só os fortes aguentam. Eu não aguentaria host um evento desse em nosso pequeno apartamento, rs

O terceiro e, por enquanto, último sleepover foi num hotel, veja você, um sleepover de aniversário! Outro amiguinho, Leon, meio japonês, meio russo, resolveu fazer uma comemoração diferente e convidou os 3 melhores amigos para um playdate/sleepover num hotel – claro, supervisionado pelos pais (que nós também conhecemos).

A farra foi completa, com direito a brincadeira na piscina e pizza no quarto. Pensa numa criança feliz!

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E assim foram as 3 experiências, até agora, do nosso primogênito com sleepovers independentes. O único problema é que o caçulinha, 3 anos mais novo, está reclamando os direitos que acha que tem, rs Quer fazer sleepovers também. Já imaginou?? Calma aí, meu caro, devagar com a andor! Daqui a três anos a gente conversa sobre isso 😉

Ansiedade é isso aí

Noite passada, capotei na cama devia ser umas 9 da noite. Pura exaustão.

Muito embora eu estivesse comprometida com meu inabalável sono, pude notar a inquietação incomum do marido que, além de ter ido pra cama bem mais tarde, se mexia e levantava com aquela frequência que só uma pessoa insone e ansiosa faz. Meu sono era tão grande, tão implicante, tão gigante, que me enfeitiçou, me impedindo sequer de perguntar o que estava rolando.

Mas nem precisou. No meio da madrugada, senti um vulto se aproximar, uma presença impaciente pairando sobre mim. De repente, veio um toque. Era ele, meu digníssimo, ansioso, querendo compartilhar comigo a resposta de um email que havia enviado.

Aí eu pergunto: ele poderia ter esperado até de manhã? Aparentemente, não, né? rsrs

Minha sorte é que meu cansaço/sono era tão intenso, que nada poderia me abalar. Abri os olhos ligeiramente, recebi a informação e, sem proferir uma só palavra, voltei pros braços de Morfeu.

Até às 5 da matina, isso mesmo, cinco da madrugada, quando novamente fui acordada com updates sobre o assunto, assim, a sangue frio, como se acordar uma pessoa às 5 da manhã foi a coisa mais natural do mundo.

Mais uma vez, recebi a informação, balbuciei alguma coisa (acho) e voltei a dormir, afinal ainda tinha uma hora até o despertador oficial tocar.

Depois sou eu a pessoa ansiosa da família…