Meltdown

Foi na segunda-feira na hora do almoço (que eu comecei a preparar logo depois do café da manhã) que eu experimentei meu primeiro meltdown desta gestação.

Foi intenso. Foi incontrolável. E, claro, os meninos assistiram de perto, sem ter ideia do que fazer.

Porque eu ando extremamente enjoada e intolerante a cheiro de comida, resolvi fazer o peito de frango no forno. Temperei, empanei com farinha sem gluten e levei ao forno.

Enquanto isso, cozinhei arroz e lentilha e temperei. Fiz uma salada e preparei vegetais refogados.

img_4907

img_4902

Quando finalmente terminei, os moleques já estavam famintos. Coloquei a mesa e os chamei. Servi o prato dos dois e então o meu.

Nick, na hora de cortar seu franguinho, derramou metade da comida no chão. Pois é, o frango passou do ponto no forno. Isso já cutucou meu estresse que estava adormecido.

Vivi, vendo minha fisionomia de desespero com aquela comida espalhada, se prontificou imediatamente para limpar. Eu deixei.

Fui dar a primeira garfada e a lentilha estava sem gosto, sem tempero. Fui partir meu frango duro e estava insosso, ruim mesmo. Desandei a chorar um choro desesperado de desproporcional, um choro acumulado, um choro de leite que ferveu e derramou. Mandei todo mundo parara de comer, porque ninguém merecia comer aquela gororoba. Os meninos se assustaram.

Imediatamente tirei dos pratos deles os frangos ressecados e junto com o que havia ficado na travessa, joguei no lixo. Peguei outra bandeja de peito de frango e grelhei na frigideira mesmo, enquanto chorava cachoeiras compulsivas. O lado positivo de estar chorando é que o nariz entupiu e não senti o cheiro da comida.

Retemperei a lentilha e servi novamente os meninos que comeram tudo sem dar um pio. Mentira, comeram elogiando, tadinhos (eu sei que mesmo o remendo não tava lá essas coisas).

Fui pro quarto e só saí quando já não restavam mais lágrimas.

Enquanto eu me debulhava, os meninos preparavam cartinhas e mimos cheios de carinho para a mãe surtada. Quando vieram me presentear, chorei outra cachoeira.

img_4903img_4904img_4905

E assim foi o primeiro dia em que o Mauricio não estava em casa. Não falei, mas ele está na Flórida. Foi na segunda e retorna amanhã. Foi tentar encontrar nosso lugar ao sol (literalmente), tentar arrematar uma oferta na University of South Florida e com ela, garantir nossa próxima parada, fechando o ciclo que iniciamos há 14 anos quando iniciamos nossa vida fora do Brasil.

Não sabemos o que acontecerá, mas seja lá o que for, que seja o melhor para nossa família.

Por ora eu sigo apreciando os lindos dias do outono coreano e tentando lidar com esse estresse (nem tanto pela possível mudança, mas pelo conjunto da obra) invisível que eu jurava não estar sentindo, mas que tava ali, escondidinho, só esperando um almoço dar errado para vir à tona.


Em tempo: desde o meltdown, as refeições ficaram muito melhores. Resolvi que não posso mais viver em função desse enjôo, não posso mais me esconder da comida, e mesmo com ânsia de vômito, enfrento os cheiros para mostrar pra mim mesma que eu sou mais forte do que esse persistente mal estar.

(again) out of the blue

Fim de domingo, estávamos eu e marido deitadinhos na cama conversando sobre sei lá o que, quando Nick entra no quarto, olha pra minha cara, bem no fundo dos meus olhos e…

– Are you pregnant, mom?

Eu: oi?

Ele: ah não, achei que você estivesse chorando…

(oi, como assim?)

E assim como entrou no quarto, saiu dele, sem maiores explicações.

Eu e marido nos entreolhamos espantados – how come?

Aí eu pergunto: será que eles estão desconfiando?

No mesmo dia, mais cedo, estávamos sentados à mesa jantando, quando o marido gesticula, indicando que a barriga estava muito aparente. Eu tento encolher, em vão.

Talvez seja hora de liberar a informação pros moleques, parar de tentar esconder a barriga em casa… O problema é que eles não sabem guardar segredo e eu ainda estou insegura, nem grávida me sinto ainda, apesar do tamanho da pança, o que me causa muita estranheza.

Essa consulta das 12 semanas que não chega nunca. Aff…

 

As 10 semanas e os olhares

É, tá difícil de esconder a pança. Especialmente em casa.

Nickito já nem comenta mais sobre meu “sobrepeso”. Achou melhor guardar um respeitoso silêncio.

Vivi, do alto de seus quase onze anos, aprendeu uma coisa ou outra sobre como não magoar as pessoas, então, muito embora, claramente, já tenha notado a pança da mãe, nunquinha fez um comentário sequer. Entretanto, coitado, a estranheza deve estar tão grande que volta e meio o pego olhando minha protuberância abdominal (e tentando disfarçar). Seu semblante mistura surpresa e interrogação. “Mamãe tá embarangando”, deve pensar. Mais um pouco e não vai nem mais querer que eu apareça na escola, para não correr o risco de comentários maldosos.

Fico imaginando o que se passa na cabecinha dele, porque, como pode a pessoa, que vive “doente”, enjoada, sem poder sentir cheiro de comida, “engordar” tanto? É, no mínimo, bem estranho.

E seus olhares não negam a estranheza.

Qualquer dia desses ele não vai se conter e comentar, já consigo imaginar: “mamãe, não leve a mal, mas…”

Talvez eu deva me adiantar e contar logo pra eles sobre a tal encomenda… Mas como se, volta e meia, tenho a notícia de um aborto espontâneo próximo de mim? E o medo?

Bom, daqui uma semana e meia e terei minha consulta das 12 semanas. Talvez, só talvez, se tudo estiver certinho, eu conte.

Vamos ver.

 

 

Alegria define.

Domingo à noite, quase na hora de dormir, Vivi, que passou o fim de semana inteiro entre brincadeiras, games e tv, se apressa em direção ao computador alegando ter uma redação importante para terminar.

Domingo à noite e ele não havia terminado o dever de casa. Típico de Vivi.

Fiquei brava, claro. Fui logo passando aquele sermão básico sobre responsabilidade, “first things first”, blábláblá…

Concluído o sermão, ele sentou-se em frente ao computador e pôs-se a escrever.

Da sala, eu só ouvia seus dedinhos teclando numa rapidez, no mínimo, interessante para um 10 year old boy – na idade dele, eu nem milho catava. Outros tempos.

Terminada a redação, sentei pra ler.

Gente, meu coração se encheu daquela alegria que só uma mãe pode sentir.

Que meus filhos têm a fala bem articulada para as idades deles, eu já sabia. Que escrevem direitinho, também. Mas ler aquela redação, baseada em fatos reais, tão bem estruturada, tão bem conduzida e tão bem finalizada, me encheu de orgulho, de alegria e, confesso, de um certo alívio, porque ultimamente tem rolado tanta briga pra estudar, ler, escrever, que eu realmente estava precisando de um carinho desse.

Claro que havia alguns errinhos gramaticais pelo caminho, assim como a persistente ausência de espaçamento entre palavras e pontuação, mas tudo isso ficou pequeno diante da clareza das ideias, do formato bem articulado, da fluência, do desenvolver e desenrolar da história e da emoção que ele depositou naquelas linhas.

Redação de quem sabe o que está fazendo, de quem domina a arte. E isso não é exagero de mãe coruja. Juro. Quem me conhece sabe bem que eu não faço parte do clube das mães que acham tudo o que os filhos fazem o máximo. Pelo contrário, sou bem crítica. Não tanto como a minha mãe, mas sou bem crítica. E no alto do meu senso crítico, garanto: muito adulto, graduado e pós graduado que eu conheço não é capaz de escrever uma redação daquela maneira.

Não que haja algo de errado nisso. Cada qual com seus talentos. Mas aquela redação madura encheu meu coração de alegria e me trouxe uma certa paz.

Vou dormir mais feliz esta noite.

 


Em tempo: Sempre achei meus moleques super criativos. Acho o máximo os livros que o Nickito adora escrever e sempre achei incríveis os comics que o Vivic costumava criar, mas o que realmente me tocou foi a escrita madura, coisa que eu realmente não esperava para a idade dele.

Às vezes, eu e o marido nos perguntamos como pode o Vivi ter tanta dificuldade pra matemática, como pode ter tanta preguiça de pensar, como pode não achar divertido/interessante. A quem ele saiu?

Às vezes a gente fica até bem preocupado com tanta falta de atenção e interesse, mas essa redação, nos 45 do segundo tempo, no melhor estilo “nas coxas”, me deu aquela sacudida. Filhos não têm que ser o reflexo dos pais, eles têm que ser o reflexo deles mesmos, com seus próprios interesses e desinteresses, facilidades e dificuldades… E nós, pais, precisamos nos preocupar menos com isso e mais em identificar essas diferenças e lidar com elas da melhor forma possível, sempre apoiando, estimulando e tomando todo o cuidado do mundo para não transformar as dificuldades da infância em bloqueios na vida adulta.

 

 

Não está sendo fácil

E o sintoma da vez é….

Boca amarga!

Não que os demais sintomas tenham me deixado em paz… Sigo enjoada, me emocionando pelos cantos, com os peitos doloridos, um sono de causar inveja à Bela Adormecida, uma azia bem chatinha e, mais recentemente, cada vez que como ou bebo alguma coisa, qualquer coisa, minha boca amarga de uma maneira perturbadora. 

Dizem que, assim como os outros incômodos, este também irá desaparecer tão logo o primeiro trimestre dê lugar ao segundo, entretanto, como nesta gestação, ao contrário das anteriores, eu tenho o agravante da síndrome de Sjogren, que por si só já deixa minha boca extremamente seca, temo que, por causa disso, o amargor se perpetue até o final da gestação, ou pior, nunca mais me abandone.

Agora, se já não está sendo fácil me alimentar corretamente com esses enjoo dos infernos, imagine somar a isso esse amargo na boca a cada coisa que eu ingiro? 

Not fun at all.

Mas no fim das contas, só uma coisa importa: que nosso terceirinho tenha saúde pra dar e vender. Todo o resto é mimimi de grávida 🙂

Em tempo: Vivi, noutro dia, viu o aplicativo de gestação no meu iPad e imediatamente me perguntou: “mamãe, você tá grávida??” Eu tirei o iPad da mão dele, no impulso, e deletei o app, dizendo que eles precisavam parar de instalar coisas aleatórias no meu iPad. Ele não tocou mais no assunto. 

Ainda bem que ele não sabe que enjoo é sintoma de gravidez, senão eu teria que entregar o jogo.

o poder da meditação

Meditação tem poder.

Fui iniciada na meditação faz, sei lá, uns três anos, através de uma amiga que me indicou um aplicativo (Headspace). Na época, precisava disso para controlar o estresse, que estava grande e agravava demais os sintomas do Sjogren. Comecei minha jornada no mundo da mindfulness e segui nele por vários meses, até que comecei a pular um dia aqui, outro ali e quando vi, aqueles minutinhos diários de meditação já não faziam mais parte do meu dia a dia. 

Até que um belo dia me vi grávida. Grávida sem ter planejado. Grávida quando, mesmo sentindo que ainda faltava um elemento pra completar nossa família (há anos sinto isso, esse vazio), sentia também que já não tinha mais tempo, nem saúde, nem energia para encarar tudo novamente. Foi um dos maiores estresses que passei. Um desespero.

Minha primeira reação foi imaginar (e procurar no Google) tudo de ruim que poderia acontecer, tudo o que poderia dar errado em virtude da idade avançada (afinal, tô na versão 4.0), da síndrome de Sjogren e de todo o caráter não planejado dessa gestação, afinal, além de obviamente não estar  preparando meu corpo para uma gestação tardia, eu tava era curtindo minhas férias que andavam regadas à caipirinha e coquetéis à beira da piscina (e olha que não bebo nunca!), sem falar do pé na jaca em todas aquelas comidas que grávidas devem manter distância. 

Tudo isso contribuiu para que eu entrasse num estado de estresse e desespero enorme, mesmo antes de voltar de férias e confirmar a gestação.

Foi aí, que renovei minha assinatura do Headspace e voltei, da noite pro dia, a ter meus encontros diários com o Andy, desta vez, através do pacote direcionado para gestantes, quem diria. Dependendo o dia, são 15 ou 20 minutos, mas todos os dias estou lá, firme e forte, naquele momento só meu. Quando a fadiga tá muito grande, confesso, acabo dormindo (no último mês aconteceu bem umas duas vezes), mas o que importa é que o resultado está aí pra quem quiser ver: ando envolta numa paz, numa tranquilidade de intrigar qualquer um que me conhece.

Não vou dizer que todas as minhas preocupações desapareceram, que esqueci delas. Absolutamente não. Tá tudo aqui, reconhecido e autenticado, porém a maneira com a qual estou lidando com tudo isso é quase como uma experiência fora do corpo. Tô observando de fora, sem analisar, sem deixar que interfiram no meu dia a dia. 

Tô tão zen que até pros meninos me tirarem do sério tá difícil. Eu “puxo a orelha”, dou sermão e às vezes falo até mais alto pros moleques acordarem pra realidade, mas tudo com muita calma e serenidade. Irreconhecível. Claro que, como qualquer grávida, lido com mudanças de humor e momentos turbulentos, mas quando acontece, passam tão rapidamente, que nem entendo. É quase como se eu estivesse conseguindo racionalizar as emoções, observá-las enquanto elas acontecem. Bem estranho. Estranho, mas libertador.

Me sinto em total controle de mim mesma. Sei que não posso controlar tudo ao meu redor, mas descobri que posso controlar como tudo ao meu redor me afeta e isso, meus caros, não tem preço.

E não é somente com relação à gestação e o dia a dia com os meninos, não. Estou vivendo o mantra: entrego, confio, aceito e agradeço. E olha que não são poucos os motivos para ansiedade e estresse nesses últimos tempos.

Só para ilustrar, em duas semanas, maridinho vai passar uma semana fora, numa campus visit na Flórida. Ele está uma mistura de euforia e nervosismo. Sonha, em pesadelo, pensa nisso o tempo todo, fala disso o tempo in-tei-ro. 

Pra quem não sabe, a campus visit é a última fase do processo seletivo, depois do qual se tem ou não uma oferta.

Pra quem não sabe, meu digníssimo sonha em se mudar pra Flórida desde que se formou no doutorado.

Pra quem não sabe, se essa ofertas concretizar, nos mudaremos de um canto do mundo para o outro com mala, cuia, duas crianças e um bebê recém chegado ao mundo.

Pra quem não sabe, se não fosse minha meditação de cada dia, estaria tendo ataques de pânico e ansiedade diários.

E é por essas e outras que eu super recomendo que todo mundo dedique uns minutinhos de seu dia, todos os dias, à meditação. Incorporar essa prática à rotina é tão importante quanto beber água, escovar os dentes. É uma questão de saúde. 

Meditação é vida.

O primeiro playdate aqui em casa

Noutro dia, recebemos o Isaac para o primeiro playdate aqui em casa.

O ar condicionado não estava funcionando, então, para minimizar o tempo indoors,  primeiro levei as ferinhas para tomar sorvete e depois passei a maior parte do tempo com eles no parquinho aqui perto, até que, finalmente pediram pra vir pra casa.

2ABA3DB4-C941-4FC7-B857-9C2241829827IMG_4764

A farra durou apenas um par de horas, mas foi boa! Riram, brincaram (e nem suaram tanto, rs), assistiram seriado e comeram pipoca, atenção, NO QUARTO 🙂 – coisa impossível de acontecer num dia normal nessa casa, rs. Mas playdate é playdate 😉