A segunda consulta: são quase 8 semanas

E lá se vão quase 8 semanas de gestação e nenhuma foto da barriga. Nem me reconheço.

Logo eu que sempre registro desde o comecinho.

Pura insegurança. Diante dos fatos, acho que, inconscientemente, estou tentando me resguardar de uma decepção/tristeza maior. Não registrar em fotos, de certa forma, me mantém ficticiamente protegida.

Claro que a essa altura, apesar de todos os medos, estou completamente apegada a esse serzinho que vai aos poucos se desenvolvendo dentro de mim. Claro que, toda manhã, quando vou fazer xixi, eu mentalizo pra que não haja nenhum sangramento, nada que indique a interrupção desse mágico momento. Mas ainda assim, ainda não consegui me entregar à alegria dele. Ainda não consigo planejar nada, pensar em nada que não seja, sobreviver um dia após o outro. Parece ridículo, mas ao mesmo tempo que rezo para essa fase de enojôos e mal estar terminar logo, agradeço por estar sentindo tudo isso, afinal, só tô nessa por causa da bagunça hormonal provocada pela evolução da  gestação.

Anyways, lá fomos nós para a segunda consulta que foi ainda mais breve que a primeira.

Como da outra vez, fiz a ultrassonografia primeiro. Desta vez, havia mais que um pontinho, havia um embriãozinho de 1.45cm com batimentos cardíacos bem nítidos: 164bpm. A data de chegada estimada desta vez era mais precisa: 14 de abril de 2019. Teremos um ariano na casa.

Dessa vez, a médica que conduziu a ultra falava um inglês invejável, mais parecia uma nativa. It felt good 🙂 Fez small talk, contou histórias e se surpreendeu quando eu disse que tinha dois filhos “grandinhos” já – tipo: “por que outro agora??” Descuido, querida… descuido…

Mas o melhor foi ela assumindo que como tenho 2 meninos, estou “tentando” uma menina. Há-há. Mal sabe ela que o Thomas está nos planos desde que eu tava no final da gestação do Nicky, rsrs

Brincadeiras (com fundo de verdade) à parte, a real mesmo é que, juro, dadas as circunstâncias, não poderia me importar menos com o gênero desse bebê. Tudo o que eu desejo é que venha com toda saúde possível. Não quero nem saber o sexo. Que seja surpresa, como foi desde o início 🙂

Anyways, concluída a ultrassonografia, fomos para a consulta. Mal sentamos em frente ao médico e, logo de cara, ele soltou a pergunta: “algum sangramento?”

Não, querido, graças a Deus, não.

Sei lá, mas tenho a sensação de que ele está esperando que algo dê errado –  o que tudo bem, afinal 40 anos é coisa pra caramba, né? Mas pô, pelo menos disfarça, né? Mas não, coreano não foi programado para disfarçar.

Contei sobre meus enjôos que não estavam me permitindo comer direito, mas não recebi nenhuma compreensão. Perguntei se não era o caso de tomar uma vitamina prenatal (comentei inclusive que tomei durante minhas duas gestações), mas obtive um seco “não”, como resposta. Ele se mantém firme na ideia de que não tenho que tomar nada que não seja o ácido fólico até  as 13 semanas e depois disso, o ferro até o final da gestação. Oh well, achei melhor nem perguntar sobre probióticos, porque ele certamente iria me mandar comer kimchi.

E o medo de tomar por conta própria, sem o aval do meu médico? Difícil viu? Aí vou adiando, mesmo sentindo que realmente preciso de um suplemento, especialmente nesse momento em que estou me alimentando super mal.

A próxima consulta será em 4 semanas, o que me causou uma certa estranheza já que estou claramente no grupo de risco. Mas vamos acreditar que isso seja um bom sinal, um sinal de que tudo parece estar bem e sob controle.

Na saída, quando fui marcar a próxima consulta, a médica da ultra veio falar comigo sobre os tais exames que eu nunca fiz, porque não fazia parte do grupo de risco nas gestações anteriores. Aparentemente, tenho que decidir se eu quero fazer o exame mais caro (uns 400 dólares), ou o padrão, menos preciso, que identifica anomalias cromossômicas, como Down, etc..

Na real, eu não queria fazer nenhum. Do que adianta? Se tiver algo de errado, faremos um aborto? Não, né? Então pra que antecipar uma possível notícia difícil de ser absorvida? Sei não… De qualquer maneira, certamente não faremos o mais caro. Quando muito, o padrão.

Só pra fechar o pacote do dia, lá fui eu fazer exames de sangue e urina, porque o hospital não aceita os exames (grátis) que fiz no centro de saúde aqui do bairro. Burocracias da saúde coreana.

Mais uma vez, na linguagem dos gestos, lá fui eu me entender com os coreanos.

Agora é aguardar as cenas dos próximos capítulos dessa longa novela que, espero, tenha um final bem feliz.

Dedinhos cruzados.


Em tempo desde a primeira vez que pisamos nesse hospital, não esbarramos com uma alma não coreana. Somos os únicos olhudos do pedaço. Inconfundíveis.

mamãe, você tá barrigudinha! Congratulations!!

Gelei ao ouvir a declaração do Nickito ainda agora na cozinha. 

“Como assim, meu filho? 

“Ué? Parabéns, mamãe! Você não andava reclamando que tava muito magra, que precisava ganhar um pesinho? Então, você conseguiu! Tá barrigudinha!”

“…”

Juro que não esperava ouvir isso tão cedo, até porque, apesar de eu estar aos poucos  recuperando o peso perdido na última semana por conta da gripe, a balança ainda acusa meros 53 Kg – que já é muito bom

Mas a verdade é que, às quase 8 semanas, muito embora eu não esteja nada ansiosa para parecer grávida (até porque ainda é segredoca) estou mesmo me sentindo mais barrigudinha. Até quando eu deito de barriga pra cima, dá pra notar uma protuberância – segundo me alertou meu digníssimo noutro dia. E isso chegou a me fazer duvidar: será que nossa balança tá quebrada? Será que eu já engordei quilos e estou sendo enganada por uma balança defeituosa? Mas não, minhas roupas seguem larguinhas. Só mesmo um volume abdominal arredondado que provavelmente se deve ao fato do meu útero estar, a esta altura, do tamanho de uma laranja (pausa para o choque). 

O fato inquestionável é que, sim, eu tô barrigudinha. E procurando, no guarda-roupas, peças que não entreguem o jogo antes do tempo.

Ai ai…

enjoo + vazio no estômago, uma combinação bombástica

Pois é, não bastasse o enjoo meu de cada dia, sinto também um constante vazio no estômago. Acordo sempre com uma sensação horrível de buraco no estômago, como se eu não comesse há dias e isso só faz agravar meu enjoo. 

Tenho comido mal, nada que é saudável me apetece. Não posso nem imaginar uma salada que minha boca logo amarga.  Sopinha, legumes, vegetais, ovos… só de escrever já me embrulha o estômago. Não  consigo sentir cheiro de comida, nem pensar em fazer compras da semana, porque não conseguiria comprar nada. Só de olhar, tudo me enjoa. 

Sorte minha ter um marido hands on, viu? O pobrezinho chega do trabalho, vai ao mercado e ainda prepara o jantar, enquanto eu me refugio no quarto de porta fechada para não sentir o cheiro. Só assim, consigo reunir forças para jantar. Tá complicado.

Mas o pior mesmo é o enjôo vir acompanhado desse constante buraco no estômago, um vazio de quem não come há milênios e que só faz aumentar o enjoo. Fico imaginando se quando o enjôo passar, vou comer as paredes e teto da casa. Se depender do tal buraco, não restará pedra sobre pedra.

A força de um desejo

Já faz uns dias que eles chegaram. Chegaram sob a forma mais inusitada, mais inesperada. Estou desejando desesperadamente comer pão com manteiga na chapa, acompanhado de café com leite. De onde veio isso, pelo amor?!! Nem na época em que eu consumia glúten e leite de vaca indiscriminadamente eu tinha esse desejo. Aliás, nunca fui fã de café com leite. Há milênios não sinto vontade de comer pão. Milênios! Estava completamente over it, não sentia a menor vontade. Até quando acontecia de irmos comer um hambúrguer, eu comia sem pão, não por princípio ou compromisso, mas por falta de interesse mesmo. E agora to aqui, me contorcendo de vontade, uma vontade arrebatadora, desesperadora de comer pão. Com manteiga. Na chapa. Acompanhado de café com leite (de vaca). 

Ó céus. O que fazer?

Sucumbir ou não sucumbir à força de um desejo?

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Atualizando: sucumbi. Marido saiu pra comprar pão e manteiga (porque em casa não tem dessas coisas) e preparou uma fatia pra mim. Quando terminei minha sessão de meditação, estava lá, do meu lado, o objeto de desejo. Comi não uma, mas duas fatias (fiz a segunda na sequência) de pão de forma normal com manteiga normal na chapa normal 🙂 e to sorrindo de orelha à orelha. Não tomei café com leite, maaaaas comi também queijo com goiabada. Porque se é pra nadar na lama, eu aproveito e abraço o jacaré. Prontofalei. Só espero que meu corpo entenda que isso não pode se tornar um hábito, não pode fazer parte do meu dia a dia, até porque, glúten é um treco do mal. Você come uma torrada e daqui a pouco tá com vontade de comer pizza. Hmmm pizza…. 

Médico safado!

Lembra do meu super doutor da medicina tradicional coreana? Aquele que passou aquele “chazinho”carérrimo pra mim e pro Vivi (um gasto investimento de quase 3 mil dólares por mês)? Então, descobrimos que estávamos pagando o dobro, isso mesmo, o dobro do preço que os coreanos pagam! Gente, O DOBROOOO!!!!

Pergunta se eu voltei lá?

Eu já havia desmarcado minha última consulta por causa da gripe fortíssima que me manteve na cama, mas depois que fiquei sabendo da novidade (uns dias após a consulta perdida), não há a menor possibilidade de voltar lá. Nem eu, nem o Vivi.

Po, nem um descontinho ele dava, mesmo sendo 2 pacientes da mesma família…

Não me importei muito, porque achei que era isso mesmo, afinal, quando eu iria supor que um hospital iria cobrar um valor tão absurdo por um medicamento? Achei que houvesse um compromisso com a ética.

Estava pagando a “taxa estrangeiro” sem saber.

Já até havia ouvido falar que a cotação de vários serviços, aqui na Coréia, era bem mais alta para estrangeiros, mas jamais esperava esse tratamento na área da saúde. Eles devem achar que estrangeiro planta dinheiro no quintal. E eu que nem quintal tenho!

Enfim, lição aprendida. Foi bom (fez bem) enquanto durou, mas chega. Não quero mais nem passar perto daquela clínica.

ele tarda mas não falha

O primeiro enjoo da terceira gestação demorou, mas chegou.

Passei 3 dias na cama, com uma gripe ou resfriado caprichado, daqueles feitos sob encomenda, sem conseguir levantar uma sobrancelha. Foi brabo. Ainda não to 100%, mas ainda assim, no quarto dia da gripe, decidi dar um basta e sair de casa. Era quarta-feira, comecei o dia levando os moleques pra escola e depois ainda reuni forças e saí novamente pra almoçar cazamiga. 

Tudo muito bom, tudo muito bem, tomei um suquinho de cenoura com gengibre (será que deveria?) e comi uma salada de folhas verdes, hummus e abóbora grelhada. Sim, ignorei solenemente a recomendação de não comer salada fora de casa. Não foi proposital, mas tava tanto calor que não consegui pensar em mais nada que não fosse salada e suco. Batemos papo, felicitamos a nova grávida do grupo e, claro, não compartilhei nada sobre meu estado interessante. Quem desconfiaria? Eu ali, magrela (ainda mais), saindo de uma gripe e comendo salada…. e sem nenhum sintoma aparente. Acima de qualquer suspeita. Foi estranho falar sobre gestação sem revelar minha situação, mas eu nem cogitei a possibilidade. Nem vontade senti, tamanho é o meu nervosismo com relação ao assunto. 

No fim do dia, fui buscar os meninos na escola e, chegando em casa, paramos na lojinha de conveniência pra comprar kimbap de atum, o preferido dos moleques. Vê-los comendo aquelas rodelinhas me abriu uma vontade tão grande que fechei os olhos pro fato de ter um pouco de maionese no recheio e comi dois pedacinhos. Mentira, comi três. 

Não demorou uma hora inteira para que o enjoo desse as caras. 

Mermão, que enjoo! Sinistro! Achei que fosse colocar os bofes pra fora, mas feliz ou infelizmente sou difícil a beça de vomitar. 

Fui dormir enjoada, me contorcendo na cama. Acordei a cada hora, quando o mal estar apertava, até que as 3 da manhã, levantei pra chupar limão. Mentira, espremi um limão num copo e completei com água gelada. Consegui voltar a dormir por mais um par de horas antes do enjoo voltar. 

Quando voltou, ficou. Está aqui até hoje. Aliás, estão. O enjoo e a gripe. A balança chegou a anunciar 51.6 kg, cerca de 3 kg a menos desde quando voltamos de viagem. Não sei onde vou parar. 

Hoje consegui tomar um leite de amêndoas batido com banana e morangos congelados (coisas geladas são mais fáceis de ingerir) e até, com muito esforço, tomei um pouco da sopa de vegetais que preparei ontem na slow cooker. Mas não consigo nem imaginar tomando isso novamente tão cedo. À noite, atendendo a pedidos, fomos jantar no brasileiro. Claro, não comi, belisquei. O que é um desperdício já que estamos falando de uma churrascaria rodízio. Não consegui tocar na salada verde. O feijão com arroz eu empurrei pra dentro. Só comi uma fatia de fraldinha extremamente bem passada e um franguinho sem pele. A única coisa que consegui comer melhor foi a farofa. Coisas secas são mais fáceis de ingerir (o que, no meu caso, é uma ironia, já que a boca é extremamente seca). 

Oh well…  aparentemente, o enjoo não começou em função da salada do outro dia ou do kimbap, mas da sétima semana que se iniciou. 

E eu achando que sairia impune dessa gestação. Há-há 

Quase 6 semanas e a primeira consulta com o Obstetra

Hoje foi minha primeira consulta com o obstetra.

Uma consulta rápida, apesar da espera infinita, que mais agregou inseguranças do que ajudou.

O médico foi recomendado pela esposa de um amigo do Mauricio que teve seu primeiro bebe recentemente. Como ninguém aqui sabe sobre meu estado interessante, não tive como trocar ideias cazamiga, então, tudo o que eu sei sobre ter bebê na Coréia, encontrei no Google, lendo blogs de expatriados e sites destinados a estes. Mentira, tenho também alguma informação informal, pingada aqui e ali, de conversas que tive com novas mães que conheci desde que cheguei aqui. Infelizmente informações vagas, afinal, não era como se eu estivesse investigando sobre o assunto.

Marquei este médico especificamente porque ele é um dos poucos em Seul, dentro do universo daqueles que falam um inglês minimamente decente, conhecido como incentivador do parto natural. E eu, call me crazy, mesmo com duas experiências frustradíssimas (1. um parto vaginal com aspirador que me custou dois meses de recuperação; 2. um trabalho de parto natural infinito e sofrido que terminou numa cesária de emergência, por pura incompetência da doutora que, na véspera, jurou que o bebê estava encaixado), acredito que no meu caso, um parto natural possa ser a melhor opção. Por quê? Por causa da Síndrome de Sjogren. Qualquer medicamento que eu tome, mesmo aqueles para gripe, costumam desencadear flare ups e tudo o que eu não preciso no pós parto, tendo um recém nascido para cuidar é um flare up.

Mas, para meu desespero, o médico foi logo me falando que ele não faz parto vaginal após cesariana. E como meu último parto foi uma cesariana de emergência, no deal.

Ele chegou a me indicar um hospital que, dependendo do caso, aceita fazer a tal VBAC, mas como fica bem mais longe de casa, achei muito arriscado. Além disso, tenho quase certeza de que com o meu histórico não vão querer arriscar um PN.

Quase resignada, perguntei se pelo menos eles me permitiriam entrar em trabalho de parto antes  da cesária (o que configuraria uma cesária de emergência), mas ele foi categórico: Não. A cesária deve ser agendada para a semana 39.

Me senti desolada.

Nesta primeira consulta, antes mesmo de conversar com o médico, fiz uma primeira ultrassonografia para confirmar a gestação e lá estava o saco gestacional com um minúsculo pontinho dentro. Às menos de seis semanas não dá mesmo pra ver/ouvir muita coisa. O médico disse apenas que para a idade gestacional tudo parecia certo e pediu que eu retornasse em duas semanas para uma nova consulta.

Recomendou apenas que tomasse o ácido fólico e só. Nada mais. Nada de vitaminas prenatal, nada de mais nada, até a semana 16, quando deveria começar a tomar ferro.

Aqui é tudo tão diferente que me sinto completamente órfã, mais perdida que cego em tiroteio.

Sem falar da barreira da língua.

Ao contrário do hospital universitário da Yonsei, aqui pertinho de casa, onde frequentamos a clínica internacional e todos os médicos e enfermeiras falam inglês, No Samsung Hospital, os funcionários sequer arranham o idioma – vai tudo na base do gestos (consegue imaginar?).  Só uma enfermeira, que fez minha triagem, falava inglês e mesmo assim bem limitado. Tivemos, inclusive que contar com a ajuda de um simpático casal que se ofereceu para nos auxiliar no preenchimento do formulário que estava todo em coreano. Quando nos viram tirando fotos das páginas e mandando por WhatsApp, vieram ao nosso socorro e preencheram tudo conosco. Não dá nem pra reclamar da Coréia, né?

Oh well… em duas semanas, voltamos aqui. Por enquanto não estou nem conseguindo pensar em parto. First things first. Seguirei com o acompanhamento aqui, até, pelo menos o fim do primeiro trimestre, quando o risco de aborto espontâneo reduz sensivelmente.

Aparentemente, aqui na Coréia, as pessoas mudam de obstetra no mínimo umas 3 vezes ao longo da gestação. Vão trocando até encontrarem um que clique. Então, muito embora eu não goste muito da ideia de ficar pulando de galho em  galho, isso me dá um certo conforto (se é que assim posso chamar), uma vez que tudo bem decidir onde terei o baby só lá para a semana 35. Tenso, eu sei. Mas o que não é tenso nessa gestação?

Por enquanto, to na vibe de (sobre)viver um dia após o outro. Devagar e sempre. Um problema de cada vez.

E vamo que vamo.