Confissões de uma eterna mãe aprendiz

Nickito é um serzinho de personalidade extremamente forte e, como tal, quando cisma com alguma coisa, não há santo que o convença do contrário. É cabeça dura, teimoso, nada flexível. Tem que ser do jeito dele e pronto. Tem dias que nem a mais longa conversa o convence.

Uma mania que ele tem, sei lá porque, é de amarrar um casaco na cintura. Ele acha cool e não há quem o faça mudar de ideia – este é o lado ruim dele não ser nada Maria Vai Com As Outras e de não se importar nem um pouco com a opinião alheia (pelo menos quando o assunto é estilo, rs). Ele é o que é, gosta do que gosta e não tá nem aí se você gostou ou não. Claro que, como qualquer ser humano normal, adora receber elogios, mas pra ele basta estar do gosto dele. Reconhecimento é lucro, rs

Faça calor ou faça frio, ele sempre inventa de colocar uma jaqueta amarrada na cintura, e eu sempre, sempre, sempre peço pra tirar: “parece um macaco amarrado pela cintura!”, apelo (aliás, acho que isso era uma expressão que minha mãe usava). Ou ainda “ah, não, assim você não sai comigo”. Horrível, né? Confesso que agora, escrevendo, fico envergonhada… Mas veja bem, não é um moletonzinho, casualmente amarrado porque “tava frio, mas esquentou e eu não tenho que fazer com ele”. É um ato calculado. Até mesmo no colégio, ele tira a jaqueta e amarra na cintura, esteja o frio que estiver. Por mais que eu não goste, é seu fashion statement, sua marca registrada. E eu sempre reclamo, peço pra tirar.

Isso até ontem à noite, quando ele me entregou um desenho composto de três partes (na foto em destaque só aparece uma) e a que mais me chamou atenção foi : um menino (ele) com um casaco amarrado na cintura.

Esse desenho foi o meu wake up call. Senti meu rosto ficar quente. Shame on me.

Caramba, eu vivo falando pros meninos que eles não têm que ser o que todo mundo é, nem fazer o que todo mundo faz, nem ter o que todo mundo tem. Sempre enfatizo que as pessoas são diferentes, tem gostos diferentes, preferências diferentes, ideias diferentes… e essas diferenças precisam ser respeitadas, até porque, o mundo seria muito chato se todo mundo gostasse das mesmas coisas, pensasse, agisse, se vestisse, falasse  da mesma maneira. Sempre digo também que pouco importa o que os outros vão pensar, então, desde que você não desrespeite ninguém (porque seu direito termina onde o do outro começa, não é mesmo?), você tem que ser você mesmo. E aí, veja você, chega esse desenho e se auto esfrega na minha cara e me mostra que eu não estou respeitando um gosto muito evidente do meu filho, gosto esse que não faz mal a ninguém (a não ser a minha definição do que é ou não é ok vestir, ou a minha noção de estética). Olha, fiquei bem envergonhada.

O pior é que o desenho não era pra me mostrar isso. O contexto era totalmente outro, mas tudo o que eu enxergava ali era a minha falta de respeito com a maneira dele se vestir.

Que bom que acordei em tempo. Me policiarei mais para não ser tão crítica a ponto de não enxergar o limite de onde termina o meu direito (de mãe) e começa o dos meus filhos (de se expressar).

 

Meltdown

Ontem, Nickito teve um meltdown na hora de dormir. Eu ainda me surpreendo com a maneira que ele expressa suas emoções. Às vezes, se porta como uma criança da idade dele, às vezes como um bebê e às vezes como um pequeno adulto preso no corpo de um menino de 7 anos. Noite passada foi assim.

Após se recusar a almoçar conosco o curry de frango e vegetais delicioso que o papai havia preparado, ele passou o resto da tarde sem comer nada e só foi tomar um hot chocolate já era noite. Super saudável, né? Só que não.

Desta vez, resolvi não brigar e vesti a camisa do “quer comer, come, não quer, não come”, só pra fazer diferente.

Ele, como um bom cabeça dura, não deu o braço a torcer e não comeu nadinha além do café da manhã.

À noite, quando passei em seu quarto para o abraço de boa noite, ele estava lá encolhido na cama, agarrado com seu tercinho, rezando e chorando. Eu, como presidente do clube das mães desesperadas, senti meu coração quebrar em mil pedacinhos, instantaneamente, assim que vi aquela imagem. E tome de conversar até conseguir arrancar dele o motivo de tamanha tristeza.

“I am struggling with my life”, ele disse. Como assim, uma criança de 7 anos diz que está struggling with his life???? E ele continuou: “Look at my desk: it’s a mess! There are piles of books everywhere around my room. Everything is a mess. I can not get organized anymore. I can not eat well anymore.” Tudo isso dito entre soluços.

De fato, o bichinho estava struggling e seu comportamento durante o almoço de hoje foi seu pedido de socorro, que eu só compreendi quando presenciei aquela cena de antes de dormir.

Estaria mentindo se eu dissesse que isso aconteceu de repente. Venho notando, sim, impossível não notar, que meu menino organizado vinha se tornando uma criaturinha bem relaxada: roupas jogadas pela casa, quarto sempre bagunçado (arrumado somente por mim, 1 vez na semana, propositalmente, na esperança de incomodá-lo – sem sucesso). Até pro dever de casa, coisa que eu nunca precisei mandá-lo fazer, o bichinho começou a fazer corpo mole. E a alimentação? Nickito que era super orgulhoso de comer de maneira saudável, ele que fazia questão de levar somente frutas e vegetais pro snack no colégio e que brigava comigo quando eu também colocava uns biscoitinhos de arroz ou uns nachos… começou a querer enterrar o pé na jaca, ou melhor, no junk. Chegou inclusive a me dizer abertamente que não queria mais ser saudável, que queria, como todos os amigos, levar sanduíche de presunto e pão com Nutella pro colégio – e eu até deixei, por dois dias consecutivos, afinal, não tô aqui pra torturar ninguém…

Eu vinha tentando contornar as situações, amenizar as regras e, principalmente, não transformar essas mudanças de comportamento num big deal, mas ontem entendi que estava fazendo tudo errado. Nenhuma mudança de comportamento deve ser menosprezada.

Naquele momento, sentada na caminha dele, peguei meu molequinho no colo, abracei bem forte e disse que ele não se preocupasse, porque eu estava ali para ajudá-lo. Sempre. Que minha função mais importante era essa: cuidar dele e do irmão, ajudá-los em tudo o que precisassem. Disse que iríamos juntos arrumar o quarto, organizar os livros e manter tudo sempre no lugar.

Ao passo que conversávamos, ele foi se acalmando e, por fim, fez a última confissão do dia: “I am starving!”.

“Você quer que eu esquente o curry pra você?” perguntei.

“Sim.” ele respondeu.

Levantei, preparei um prato, esquentei e dei na boquinha. Sim, ele comeu todinho, aquele mesmo curry que, no almoço, ele disse odiar (sem nem ter provado).

Ai ai, não é fácil maternar, viu? Mais difícil ainda, quando, por outros motivos, você vive estressada e acaba não conseguindo ter clareza na hora de lidar com situações que poderiam ser simples, mas potencializam sua irritação.

Mas a gente vai aprendendo, evoluindo. Um passinho de cada vez.

Nickito já melhorou tanto, que eu mal creio que há um ano, dava os ataques que dava, totalmente out of the blue.

Como eu sempre digo, as pessoas são diferentes e por mais que você crie os filhos, em tese, a mesma maneira, eles têm essências diferentes, são seres humanos únicos e complexos e precisam ser conduzidos de acordo com suas necessidades. Muitas vezes, o que funciona pra um, não funciona pro outro, então é fundamental estar sempre aberta aos ajustes na condução dos filhotes. Cada vez mais, acredito que não há receita de bolo. Até porque, os ingredientes variam muito em cada pacotinho de gente.

Eu sigo tentando, sigo aprendendo e às vezes até acho que estou acertando. Tomara.

Bolo de fubá com gostinho de infância

Eu, como costumo dizer, sou carioca da gema, da clara e da casca, entretanto, meus avós maternos e paternos, apesar de terem vivido a maior parte da vida no Rio, são de origem mineira, sô! E toda minha família antes deles também é, logo, o sangue que corre nas minhas veias vem lá das Minas Gerais, onde, todos os anos eu dava uma passadinha, às vezes de uma semana, às vezes de um mês inteiro. E todas as vezes tinha bolo de fubá. Tá, em casa também tinha bolo de fubá, na casa da minha avó paterna também (na da avó materna tinha outras mineirices, como bolo de aipim, canjica doce, canjiquinha…hummm), mas pra mim, bolo de fubá, ou melhor, broa, como chamam os mineiros, lembra minhas férias na fazenda. Broa, pra mim, tem sabor de infância e traz à tona aquelas memórias que aquecem meu coração.

Lembro que na casa da minha bisa, era um entra e sai o dia inteiro  e Dona Niquita, como era conhecida, tinha sempre um pedaço de bolo saído do forno e um cafezinho passado na hora no coador de pano, servido com leite ordenhado naquela manhã. Os bolos e broas da minha tia-avó Stella tinham um sabor especial, sabor de férias.

Noutro dia, tava fazendo um bolo de banana pro Vivi, quando me bateu uma vontade louca de comer uma broa fresquinha. Não pensei duas vezes e, enquanto o bolo de banana estava no forno, preparei rapidamente a massa da minha broa.

Não vou dizer que ela tem aquele mesmo gostinho da que minha tia-avó fazia, mas uma coisa é certa, ela sempre me remete a minha infância 🙂

Se você quiser provar, anota aí (é sem glúten e sem lactose):

INGREDIENTES:

– 2 ovos;

– 1/4 de xícara de óleo de abacate extra virgem;

– 3/4 xícara de açúcar demerara;

– 1 xícara de fubá;

– 1/3 de xícara de farinha de arroz integral;

– 1 xícara de leite de coco;

– 1 colher de sobremesa de fermento em pó;

PREPARO:

Bata os ovos levemente (à mão mesmo), acrescente o óleo de abacate, o leite de coco e o açúcar e misture bem. Acrescente o fubá, a farinha de arroz integral e o fermento e misture novamente. Você pode acrescentar 1 colher de sobremesa de erva-doce (eu não tinha em casa), fica ainda mais saboroso. Leve ao forno pré-aquecido 180C por 30 minutos, ou até passar no teste do palito.

Dizem que fica uma delícia acompanhada de um cafezinho.

Mas ó,  cuidado para não comer tudo de uma vez.