Call me crazy

Pode me chamar de louca (talvez eu seja mesmo), mas sabe aquela saudade antecipada que eu sinto das crianças? Então, comecei a sentir também de Seul.

(pausa para você se recuperar do choque – porque… né?)

Não, nós não estamos nos mudando novamente. Não que eu saiba, pelo menos. Mas visto que estamos completando dois anos de Coréia em agosto (e começaremos a pagar imposto em breve, o que torna estar aqui 18% menos interessante), já começo a ver a luz da mudança no fim do túnel. E quando eu digo “a luz da mudança”, que fique bem claro, não é como se eu estivesse ansiosa por ela, viu? Not anymore.

É verdade que o inverno é longo e cruel (pelo menos dentro de casa é sempre primavera). É verdade que a água do chuveiro acaba com minha pele e cabelos (por isso instalamos um filtro). E, principalmente, é verdade também que a poluição, Jesus amado, é irritante – literalmente, irrita olhos, pulmões, pele… e o psicológico também, porque, gente, ninguém merece viver sob um céu que raramente é azul, respirando um ar que faz o peito chiar (desconfio que aos 40, estou ficando asmática, tá bom pra você?). Mas ainda assim, ainda com essas mazelas que vêm junto com a experiência coreana, ainda assim, viver aqui me traz alegria.

IMG_0228

Meu vocabulário em coreano se resume a meia dúzia de palavras e nem essa meia-dúzia eu sei escrever (triste, mas não tenho motivação para aprender). Não leio as placas, não entendo nada; passo perrengue na hora de chamar um taxi pelo aplicativo – praticamente enfio meu telefone na cara de um passante na rua para falar com o taxista do outro lado; me comunico na linguagem quase universal dos gestos; me aborreço no supermercado, ou porque não encontro o que quero, ou porque encontro e o preço me atinge como uma facada; moro num apê beeeeem menor que a casa que morava na Australia, que não me permite receber a galera em casa como costumava fazer… mas ainda assim, acredite, desenvolvi uma apreciação, um carinho especial por esta cidade e vou , sim, sentir muita saudade dos anos que estamos passando aqui.

Aqui, nós nunca seremos locais, ainda que falássemos coreano perfeito, seríamos sempre a exceção na rua, porque tirando Itaewon, em todas as outras neighborhoods, ocidentais não passam despercebidos. E isso tem um lado bem chato e desconfortável, mas tem outro bem interessante. Por exemplo, se vamos a um restaurante uma vez e voltamos 3 ou 6 meses depois, não importa, lembram da gente.

IMG_0231

Me acostumei a entregar coisas com as duas mãos, ou com a mão direita, tendo a esquerda tocando levemente o braço direito (faço isso até no Brasil). Me acostumei a me curvar, ao agradecer ou saudar alguém. Me acostumei até com a “sopinha de água” que antes eu rejeitava. Me acostumei ao kimchi e ao tempero coreano. Me acostumei à vida aqui. E gosto dela.

São tantas situações interessantes que passamos diariamente na terra do kimchi, que dá a sensação que moramos aqui há muito tempo. O simples fato de sairmos para dar uma volta na rua, no parque, ou de irmos ao cinema, sempre nos faz experimentar algo inusitado. E é desse inusitado que vou sentir falta. Mas não somente dele.

IMG_0234

Vou sentir falta também as luzes e alegria de Sinchon, do agito das ruas de Hongdae, da peculiaridade de Yeonhui-dong, da vida que permeia os espaços urbanos o tempo todo. Vou sentir falta da expectativa pela primavera e da alegria que me causa a sua chegada. Vou sentir falta de ter uma montanha no quintal de casa e de andar pelas ruas e ouvir pessoas conversando sem ter a menor ideia do que elas estão falando (é quase como um barulho de rádio fora da estação, te faz desligar do que está acontecendo ao seu redor e se voltar pra dentro de você). Vou sentir falta da cordialidade do povo. Vou sentir falta de apreciar verdadeiramente um dia de céu limpo e azulzinho (coisa rara aqui) – já notou como a gente não valoriza as coisas simples da vida? We totally take it for granted. A Coréia vem me ensinando muitas coisas, mas uma das mais valiosas lições até agora foi a apreciação pelo invisível, pelo ar que eu respiro. Hoje, quando me deparo com um céu azul, fico feito criança deslumbrada, feito boba mesmo apreciando e repetindo: “olha que céu maravilhoso!”

fullsizeoutput_3f15

Mas de novo, não estamos indo a lugar nenhum. Não agora. Mas seja lá pra onde formos e quando formos, sentirei falta de Seul. Sentirei falta de seus incontáveis e maravilhosos parques, da sua organização, das suas regiões tão características.

Mas se não estamos indo a lugar nenhum, porque este post agora? O que deu em mim?

Ah, este post nasceu porque ontem chegamos aos 21 graus! Vinte e um freaking graus, ar puro e céu azul, que me convidaram a finalmente abrir as janelas e sair de casa para uma revigorante caminhada. Atravessei a montanha e fui até Sinchon só pra tomar um suco. A alegria de não precisar usar casaco era tão grande que tive que me segurar para não dançar ao som da música que tocava numa loja no meio da rua, ou de cantar junto, bem alto (cantei baixinho). Respirar fundo e não sentir o peito chiar, sentir os raios de sol batendo no rosto, ver aquele céu lin-do, me fez acordar de um transe e lembrar que a vida é boa e que ser feliz é simples. Basta temperaturas amenas e ar puro. A Coréia que me ensinou.

IMG_0242

 


Em tempo: O dia foi tão bom que, à noite, saímos os 4. Atravessamos a montanha para jantar, eu e marido a pé, e os meninos de skate e scooter. Ah, as coisas simples da vida… são as melhores.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s