Meltdown

Ontem, Nickito teve um meltdown na hora de dormir. Eu ainda me surpreendo com a maneira que ele expressa suas emoções. Às vezes, se porta como uma criança da idade dele, às vezes como um bebê e às vezes como um pequeno adulto preso no corpo de um menino de 7 anos. Noite passada foi assim.

Após se recusar a almoçar conosco o curry de frango e vegetais delicioso que o papai havia preparado, ele passou o resto da tarde sem comer nada e só foi tomar um hot chocolate já era noite. Super saudável, né? Só que não.

Desta vez, resolvi não brigar e vesti a camisa do “quer comer, come, não quer, não come”, só pra fazer diferente.

Ele, como um bom cabeça dura, não deu o braço a torcer e não comeu nadinha além do café da manhã.

À noite, quando passei em seu quarto para o abraço de boa noite, ele estava lá encolhido na cama, agarrado com seu tercinho, rezando e chorando. Eu, como presidente do clube das mães desesperadas, senti meu coração quebrar em mil pedacinhos, instantaneamente, assim que vi aquela imagem. E tome de conversar até conseguir arrancar dele o motivo de tamanha tristeza.

“I am struggling with my life”, ele disse. Como assim, uma criança de 7 anos diz que está struggling with his life???? E ele continuou: “Look at my desk: it’s a mess! There are piles of books everywhere around my room. Everything is a mess. I can not get organized anymore. I can not eat well anymore.” Tudo isso dito entre soluços.

De fato, o bichinho estava struggling e seu comportamento durante o almoço de hoje foi seu pedido de socorro, que eu só compreendi quando presenciei aquela cena de antes de dormir.

Estaria mentindo se eu dissesse que isso aconteceu de repente. Venho notando, sim, impossível não notar, que meu menino organizado vinha se tornando uma criaturinha bem relaxada: roupas jogadas pela casa, quarto sempre bagunçado (arrumado somente por mim, 1 vez na semana, propositalmente, na esperança de incomodá-lo – sem sucesso). Até pro dever de casa, coisa que eu nunca precisei mandá-lo fazer, o bichinho começou a fazer corpo mole. E a alimentação? Nickito que era super orgulhoso de comer de maneira saudável, ele que fazia questão de levar somente frutas e vegetais pro snack no colégio e que brigava comigo quando eu também colocava uns biscoitinhos de arroz ou uns nachos… começou a querer enterrar o pé na jaca, ou melhor, no junk. Chegou inclusive a me dizer abertamente que não queria mais ser saudável, que queria, como todos os amigos, levar sanduíche de presunto e pão com Nutella pro colégio – e eu até deixei, por dois dias consecutivos, afinal, não tô aqui pra torturar ninguém…

Eu vinha tentando contornar as situações, amenizar as regras e, principalmente, não transformar essas mudanças de comportamento num big deal, mas ontem entendi que estava fazendo tudo errado. Nenhuma mudança de comportamento deve ser menosprezada.

Naquele momento, sentada na caminha dele, peguei meu molequinho no colo, abracei bem forte e disse que ele não se preocupasse, porque eu estava ali para ajudá-lo. Sempre. Que minha função mais importante era essa: cuidar dele e do irmão, ajudá-los em tudo o que precisassem. Disse que iríamos juntos arrumar o quarto, organizar os livros e manter tudo sempre no lugar.

Ao passo que conversávamos, ele foi se acalmando e, por fim, fez a última confissão do dia: “I am starving!”.

“Você quer que eu esquente o curry pra você?” perguntei.

“Sim.” ele respondeu.

Levantei, preparei um prato, esquentei e dei na boquinha. Sim, ele comeu todinho, aquele mesmo curry que, no almoço, ele disse odiar (sem nem ter provado).

Ai ai, não é fácil maternar, viu? Mais difícil ainda, quando, por outros motivos, você vive estressada e acaba não conseguindo ter clareza na hora de lidar com situações que poderiam ser simples, mas potencializam sua irritação.

Mas a gente vai aprendendo, evoluindo. Um passinho de cada vez.

Nickito já melhorou tanto, que eu mal creio que há um ano, dava os ataques que dava, totalmente out of the blue.

Como eu sempre digo, as pessoas são diferentes e por mais que você crie os filhos, em tese, a mesma maneira, eles têm essências diferentes, são seres humanos únicos e complexos e precisam ser conduzidos de acordo com suas necessidades. Muitas vezes, o que funciona pra um, não funciona pro outro, então é fundamental estar sempre aberta aos ajustes na condução dos filhotes. Cada vez mais, acredito que não há receita de bolo. Até porque, os ingredientes variam muito em cada pacotinho de gente.

Eu sigo tentando, sigo aprendendo e às vezes até acho que estou acertando. Tomara.

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