O nerd e o bagunceiro

Muitos pais se envaidecem por terem filhos “perfeitos”, maleáveis, gentis… alegando ser a criação em casa que define suas personalidades, mas cada vez mais concluo que não, não é bem assim. Nós, como pais, podemos/devemos fornecer a orientação, especialmente através do exemplo, isso é bem verdade, mas o que define a personalidade dos nossos filhos é algo muito mais forte e reside dentro deles: sua essência. Pelo menos, é assim que eu enxergo, é isso que venho observando nas diferentes famílias que me cercam e também na minha própria.

Tenho em casa dois exemplares completamente diferentes de seres humaninhos. Nickito e Vivisauro são extremos opostos em tantos aspectos que nem sei por onde começar, mas hoje vou tentar focar somente num pedacinho do quesito escola.

Vivi é o todo popular, super auto-confiante no aspecto social da coisa. O problema é que junto com toda essa popularidade e auto-confiança, vem também a bagunça, o falatório, a inquietação e a necessidade de estar sempre o foco, de ser o centro das atenções – sem falar da seríssima questão do “Maria vai com as outras”, que é um capítulo à parte e já quase me tira o sono, porque o bichinho tem uma necessidade enorme de se sentir parte do todo, de fazer parte da galera. Se ele pudesse formar uma fraternidade e ser o líder deles, seria felicidade plena. Ele é assim na escola, em casa, na chuva, na rua ou numa casinha de sapê. É o mesmo Vivi, esteja onde estiver.

Ele que, naturalmente já sente dificuldade em manter o foco na aula ou em qualquer atividade que exija concentração, ainda tem os agravantes de ser completamente estabanado e de gostar de fazer graça e adorar ser o desencadeador de gargalhadas. Combinação perigosa, nitroglicerina pura.

Claro que, da professora, não ouço elogios rasgados (nem comedidos), mas sim alertas sobre seu comportamento agitador e interruptivo. Sim, para meu desespero, ele é daqueles alunos que atrapalham a aula e tiram a professora do sério (pelo menos aquelas despreparadas). Minha culpa? Há quem diga…

Nickito, por sua vez, não faz o tipo super popular e nem faz a menor questão de ser, pelo contrário, prefere poucos amigos. Poucos e bons (no caso, amigos bons = aqueles que permitem que ele esteja in charge). É super concentrado, extremamente dedicado, segue todas as regras e ainda vigia o resto da galera pra ter certeza que estão todos na linha (o famoso dedo duro). Fala quando tem que falar, trabalha quando tem que trabalhar, lê quando é hora de ler, escreve quando é hora de escrever. Pelo menos na escola, ele é um menino exemplar. O único problema é que junto com toda essa boa fama vem um medo enorme de errar, uma vergonha gigantesca de descobrirem que ele é apenas humano, apenas um menino de 7 anos, que, quando “ninguém”  tá olhando, faz birra e vai contra as regras. Sim, porque, em casa, a história é outra… apesar de sustentar muitas de suas qualidades, a intimidade o deixa muito confortável para bagunçar, teimar, responder, desobedecer regras.

Mas na escola, ele é exemplar. Tão exemplar que a professora nem espera a reunião para rasgar seda, o faz constantemente, seja pessoalmente, ou por emails inesperados no meio da semana. É bom ouvir elogios sobre um filho, muito bom, fico extremamente contente, mas, juro, em nenhum segundo, penso que ele ser assim seja mérito meu. Nunca mesmo. Ele é assim porque ele é assim, ora! Até porque, ele age de uma maneira em casa e de outra na rua.

Agora, sabe o que é melhor do que ouvir elogios sobre o Nick? Ouvir elogios sobre o Vivi.  Isso sim me causa uma euforia interna, porque eu sei que dentro daquela casca desastrada, desfocada e exibida, reside um menino bonzinho que se chateia quando chateia os outros.

Semana retrasada foi especial, tivemos o resultado da última prova de matemática que foi quase perfeito e, na sequência, um email de um professor, elogiando a dedicação e comportamento do Vinny durante as aulas.  Confesso que fui até checar novamente pra ter certeza que o email era sobre o Vivi, rs. E a sequência ainda teve o report do termo, onde ele só não tirou 3 (as avaliações na elementary school se resumem a 1, 2 e 3) em Coreano. Até sua home teacher teceu elogios sobre como ele melhorou (cá entre nós, a duras penas! rs).

Meu ponto é: a orientação dos pais permite moldar as atitudes dos filhos, mas de maneira nenhuma define sua essência.

“Mas, Erica, então você está dizendo que não adianta tentar educar, é isso?”. Não, não é isso. Educar é fundamental, é nossa obrigação, uma poderosa ferramenta para moldar o comportamento das nossas crias e para mostrar o caminho certo. Temos que sempre oferecer o melhor exemplo, mas o que eles fazem com esse exemplo, ou mesmo como eles interpretam esse exemplo, é algo sobre o qual não temos todo o controle que gostaríamos, afinal de contas, nossos filhos não são robôs, não podem ser programados, somente orientados. A decisão final parte de dentro. De dentro deles. Uns parecem que já nascem prontos, outros absorvem a orientação muito rapidamente, outros demoram mais para absorver e outros, ainda que inconscientemente,  parecem impermeáveis a ela.

Algumas famílias têm filhos daquele modelo fácil de moldar, outras têm que manusear muito mais para chegar no ponto desejado. Sem falar que há aquelas famílias que cortam um dobrado com modelos que parece que foram moldados, mas logo voltam à forma inicial, porque a sua essência não é moldável, pelo menos não definitivamente.

Educar é difícil e, definitivamente, não depende só de você que está educando. Depende de quem está recebendo a educação e, em alguns casos, também do meio em que estão inseridos, o meio maior, sobre o qual você tem muito pouco controle.

Eu tenho um nerd e um bagunceiro, ambos adoráveis, inteligentes, divertidos, cada qual a sua maneira. Cada qual percebido de uma forma pelo mundo lá fora. Ambos com suas qualidade e seus defeitos, que não são minha culpa nem meu mérito. Ambos, seres humaninhos únicos, com essências diferentes que precisam ser orientados para o bem, mas de maneiras diferentes, porque um mesmo estímulo pode provocar reações completamente distintas, dependendo da essência do estimulado.

Demorei para entender isso, demorei para compreender que não devemos criar nossos filhos todos da mesma forma, mas sim com o mesmo amor, a mesma atenção, a mesma dedicação e respeitando suas diferenças. A criação deve ser constantemente adaptada às condições e as respostas obtidas ao longo do percurso.

Maternidade/paternidade é para os fortes.

 

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