O desconforto de ter uma diarista depois de tantos anos de DIY

Morar fora por tanto tempo, me fez ficar cada vez menos confortável com a presença de funcionarias do lar, especialmente quando o relacionamento entre empregado e empregador é tão hierarquizado. Quando moramos na Austrália, até tive ajuda, quando o Nickito era bebezuco, mas era diferente, era praticamente como se uma amiga tivesse me dando uma força (remunerada) com a limpeza. Chegava, dava dois beijinhos (era brasileira), papeava um pouquinho, falava da vida e, em seguida, eu saía com o Nickito. Funcionava super bem.

Mas o tempo passou, a menina terminou seu curso, mudou-se de Melbourne para Perth, abriu uma empresa de intercâmbio e eu nunca quis outra pessoa. Primeiro porque era super caro, segundo porque igual a ela não encontrei outra. Pessoas como ela, que fazem bem tudo o que se propõem a fazer, é difícil encontrar.

O fato é que viemos para a Coréia e aqui, todo mundo que a gente conhece tem uma diarista, coincidência ou não, todas elas, filipinas. Eu custei a me render, por vários motivos, mas o principal deles é que eu sei que EU SOU CHATA, então dificilmente eu iria ficar satisfeita com o jeito filipino de fazer faxina. Só que, apesar de ser chata, reclamar do trabalho alheio me causa um grande desconforto, dispensar a pessoa então, me dá dor de barriga só de imaginar. Ainda mais uma filipina que trabalha duro, para ganhar 10.000 won por hora (equivalente a 10 dólares) para se sustentar e, provavelmente, ainda mandar dinheiro pra casa.

Mas me rendi à tentativa, mais porque a moça estava muito interessada em pegar o trabalho, do que pela minha vontade de tê-la aqui semanalmente. Tá, não vou negar, é uma senhora ajuda. Aspirar a casa toda (e os tapetes!), passar pano no chão, lavar os banheiros, tirar o pó, dobrar a roupa limpa, limpar vidros e portas de armários… isso tudo toma tempo e por mais que ela não faça como eu, pelo menos ela faz. Não fica 100% mas fica 70 e eu tô, aos poucos, me rendendo também ao antes feito que perfeito.

Claro que eu sempre rearrumo as almofadas no sofá, alinho os quadros na parede, reordeno os temperos… claro que eu é que arrumo as camas e coloco as roupas pra lavar. Claro que o banheiro nunca fica 100% e claro que sou eu que limpo a geladeira e também o filtro do exaustor (apesar de estar especificado na lista de tarefas). Mas sabe de uma coisa? Tô fazendo vista grossa, aderindo ao jogo do contente, porque no fim das contas só eu noto que o rejunte do banheiro não está brilhando.

Tô aprendendo também a não ter medo de pedir. Odeio ter que pedir para limpar as janelas, o peitoril… odeio ter que pedir para lavar o banheiro e não apenas passar o paninho. Odeio ter que pedir para passar produto nos móveis de madeira. Odeio ter que pedir o que para mim é óbvio que precisa ser feito. Me sinto péssima, parece que estou dizendo: “ei, você não sabe fazer seu trabalho. Vem cá que eu vou te ensinar”. Mas estou aprendendo que o óbvio para uma brasileira não é óbvio para uma filipina e que se eu quiser que algo seja feito, tenho que pedir explicitamente (a longa lista que preparei não adiantou muito, rs).

Mas não é apenas isso que me incomoda na relação empregado-empregador. Aqui, o que mais me incomoda é o distanciamento. Odeio ser chamada de Madame! ODEIO! Odeio essa hierarquia sem sentido. Uma diarista é apenas uma pessoa que está prestando um serviço pra mim. Assim como eu presto serviço pros meus clientes. Fazemos nosso trabalho e somos remunerados. Pra que as formalidades e o distanciamento? Isso não entra na minha cabeça, especialmente quando a relação é com funcionárias do lar, uma coisa tão íntima. Ela dobra minhas calcinhas, caramba! Aliás, essa é outra coisa que me causa desconforto.

Mas aos poucos, acho que vamos chegando num meio termo. A experiência está sendo interessante, me tirando bastante da minha zona de conforto, mas a verdade verdadeira é que eu não sei se depois das férias de verão, quando vamos passar um mês fora, eu continuarei com ela. Pode ser essa a deixa que eu preciso para voltar para meu esquema DIY.

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