O inverno, as escolhas e as limonadas da vida (não necessariamente nesta ordem) – um momento de reflexão

(senta que é textão)

Eu sei que há um mundo de gente que sonha vir pra Coréia, que adora a cultura, a comida, a língua, que é fã de Kpop e daria um dedo mindinho pra morar aqui, mas eu, apesar de, ao longo desses 8 meses, ter me tornado uma grande fã do povo coreano, não faço parte desse mundo de gente.

Não me interprete mal, acho a Coréia incrível em diversos aspectos e tenho uma profunda admiração e respeito pelo povo coreano, sua cultura e história, mas a verdade é que não nasci pra morar aqui. É uma questão de encaixe. Pra mim, Erica, passar uma singela e descompromissada temporada de um mês na Coréia (de preferência durante a primavera) seria o ideal para que eu guardasse as melhores lembranças sem ter que fazer as limonadas diárias que venho tentando fazer. Mas a verdade é que as limonadas são necessárias, para não dizer fundamentais, para o crescimento e auto-conhecimento.

O ser humano adapta-se a tudo nessa vida, então é óbvio que, aos poucos, vou me acostumando à Minha Vida Coreana e até gostando dela, mas dizer que me sinto em casa, que curto de verdade morar aqui, como curtia minha vida na Austrália, seria uma grande forçação de barra, para não dizer uma grande mentira (apesar de que, essa minha primeira primavera coreana está deslumbrante, rs).

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Tenho muitas angústias, fruto dessa vida tão fora da minha caixinha original de fábrica, mas claro que para quem observa de fora é mais fácil e óbvio enxergar apenas o glamour e a sorte, do que compreender o quão complicado é conviver com o desenrolar de algumas das minhas escolhas. Sim, toda moeda tem dois lados.

Vivemos diariamente um grande Jogo da Vida. Se, por exemplo, aos 26 anos eu não tivesse saído do Brasil, teria seguido meu plano de vida quadradinho, dentro da caixa, aquele que eu tracei ainda na faculdade, e hoje estaria, profissionalmente, exatamente ou muito perto de onde eu havia planejado e, talvez, estivesse até contente, vivendo na ignorância das inimagináveis possibilidades, sem conhecer o sabor acri-doce da vida além do arco-íris, sem colecionar as experiências enriquecedoras e impagáveis que  venho colecionando além do horizonte.

O fato é que sair do Brasil  me tirou da minha zona de conforto, me abriu os horizontes, me levou por caminhos que eu jamais imaginei caminhar e me transformou numa versão completamente diferente da Erica que eu era – isso inclui valores, sonhos, perspectivas de vida, prioridades… tudo isso graças, não apenas às experiências bacanas, mas diria que, principalmente, graças aos desafios que muitas vezes são subestimados até por mim, imagina por quem observa de fora.

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Mas é óbvio que uma escolha apenas não muda uma vida inteira. O que define nossa vida são as várias escolhas que fazemos ao longo da caminhada. E eu fiz e tenho feito tantas! Todas elas (inútil e) cuidadosamente pesadas na balança dos prós e contras – como se fosse possível prever os acertos usando essa balança imaginária.

O fato é que acertando ou não, somos senhores das nossas escolhas, até mesmo quando escolhemos não escolher e ir com a maré. Mas mais do que isso, somos responsáveis pela maneira como trilhamos os caminhos que escolhemos e como encaramos os resultados dessas escolhas. No fundo, nosso estado de espírito é que define o que atraímos para a gente.

Estar feliz atrai mais felicidade – fato. Já a insatisfação e a tristeza acaba nos levando a focar no peso dos “inúteis” limões azedos que caem sobre nossas cabeças vez por outra, não nos permitindo enxergar, tampouco valorizar as pequenas alegrias diárias, e isso acaba nos atraindo para o buraco negro da insatisfação cíclica.

Tenho, cada vez mais, a certeza de que nossa vida é um ciclo que nós mesmos criamos e que é fundamental entender e aceitar que estamos no comando e somos os responsáveis, senão pelos resultados das nossas escolhas, certamente pela maneira como nos comportamos ou nos sentimos com relação a esses resultados. Definitivamente, a felicidade, apesar de estar constantemente presente dentro da gente e ao nosso redor, não se manifesta sem ser convidada. É necessário abrir nosso olhar e nossa consciência, descobrir o que ativa nossa felicidade particular e o que a inibe. Muitas vezes, fatores externos nos impedem de abrir a nossa consciência para a felicidade, nos prendendo a um ciclo negativo – no meu caso, esse fator chama-se inverno. Para quebrar o ciclo, é necessário muita força de vontade ou, no meu caso, a chegada das flores, literalmente :).

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Desde que o inverno começou a se despedir, tenho saído mais, descoberto lugares novos e visitado outros que estavam na minha lista fazia tempo. Aliás, estou tão comprometida em transformar meus limões em limonadas, que criei um board no Pinterest dedicado a lugares para conhecer e coisas pra fazer em Seul e arredores – e a lista tá crescendo tanto que 3 anos será pouco.

“Vida difícil”, você deve estar pensando (ironicamente, claro). Mas acredite, eu não preciso de muito pra ser feliz, juro. Mais do que o país em si, ou as condições financeiras, o que faz diferença mesmo pra mim é o clima, a presença de amigos/família e, se possível,  a proximidade da praia (por que eu saí do Rio mesmo? rsrsr). Diria que estes três fatores juntos exercem um poder enorme sobre o meu humor e, por consequência, sobre a minha forma de enxergar a vida, mas eu só descobri isso quando deixei o Brasil, até porque, no Rio eu tinha praia, amigos, família e verão o ano inteiro, né? Eu vivia feliz, bem humorada, super positiva, sempre achando tudo lindo. Mal sabia eu que estava sendo alimentada pela energia diária vinda do sol, do tempo quente, da presença dos amigos, da família, da proximidade do mar.

Foi quando enfrentei meu primeiro inverno de verdade que descobri que a Erica feliz, bem humorada e positiva era apenas uma consequência das  minhas pequenas e “invisíveis” alegrias diárias que, muito embora tenham uma importância enorme sobre quem eu sou, passavam despercebidas sem receber o devido reconhecimento.

Este meu último longo e tenebroso inverno coreano me fez (re)descobrir que o que me  deixa triste não é morar em Seul (que, na verdade, apesar da poluição, é um lugar incrível), mas sim passar pelos meses de frio intenso e pouca luz, que parecem intermináveis, especialmente com a escassez de amigos. Na verdade, se você acessar meus primeiros posts vai notar que ao chegar em Seul, quando ainda era verão, minha narrativa era de puro encantamento (salvo quando o assunto era o apartamento, ou os preços no mercado, rs).

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Com o fim da estação da depressão, comecei a me sentir renovada e disposta a abraçar verdadeiramente a vida aqui. Parei de bloquear a felicidade, abri a minha consciência pra ela e sabe o que aconteceu? Ela se manifestou de maneiras inacreditáveis. Por exemplo, nos aproximamos de pessoas conhecidas e até uma família brasileira recém chegada aqui encontramos, por acaso e sorte, nos corredores de um shopping e nos tornamos amigos. Coincidência? Pode ser… Mas o fato é que ao mudar meu estado de espírito, abri meus olhos à procura das coisas positivas que a neblina da insatisfação não me permitia enxergar.

Pois então, agora que a nuvem negra do winter blues passou, já consigo respirar fundo e encarar esses anos que passaremos aqui como um período de pausa, um sabático, um presente a ser desfrutado e não uma pena a ser cumprida – afinal, se estamos aqui [e porque assim quisemos, assim escolhemos. Decidi, então, me esforçar para curtir o momento e tentar não me afligir tanto com o que não dá pra mudar.

Hoje, escolho focar na gratidão. Gratidão pelas oportunidades de auto-conhecimento, de crescimento e, claro, pela oportunidade de viver em lugares tão fora da minha caixa e colecionar incríveis experiências e memórias.

The old positive Erica is back! Pelo menos até o próximo inverno chegar ;).


PS: No geral, digamos que tenho me esforçado e feito boas limonadas com os limões que caem na minha cabeça – minha yoga coreana que o diga 😛

PS 2: Diria que meu desafio de vida aqui na Coréia será me curar dos winter blues e encarar o inverno como o que ele é: apenas uma estação do ano.

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