A semana da virada

Estava eu saindo da yoga, pela primeira vez, apressada, porque tinha um encontro marcado com uma nova amiga, uma austríaca que conheci através de seu marido italiano que conhecemos numa festa na casa de um outro amigo italiano. Eu já estava meio atrasada e ainda tinha que caminhar até o metrô (que peguei, pela primeira, vez sozinha – yay!) e justamente no único dia que eu tinha um compromisso, a mocinha me chama e pergunta se eu teria 10 minutos para conversar (como dizer que não, não é mesmo?). “Claro que sim”.

Sentei-me à mesa em frente a ela e, enquanto ela procurava suas palavras no google translate, me mostrava o pedacinho de galho com muito cuidado, explicando seu propósito. Pela primeira vez, após um mês indo à Yoga, me senti acolhida ali. A sensação que tive é que eu havia passado no probation time :), que finalmente elas entenderam que eu não estava ali só pra ver qual é, que eu realmente precisava estar ali, mesmo com todas as limitações impostas pela total não compreensão da língua. Pela primeira vez, senti aquele calor humano. Saí de lá agradecida e emocionada.

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Esse pedacinho de galho não é apenas um pedacinho de galho, ele tem uma história, um propósito. Ganhei de uma das minhas instrutoras de yoga que, por causa de seu inglês limitado, não soube me dar muitos detalhes, só disse que foi seu mestre quem fez com suas próprias mãos e me passou as instruções de como utilizá-lo nas palmas das mãos e plantas dos pés, sincronizando movimentos e respiração, uma mistura de meditação e transferência de energia (pelo que entendi, para me auxiliar no controle de alguns sintomas da minha auto imune, do estresse, da ansiedade…).

Esse pequeno e inesperado gesto me trouxe uma nova e grande apreciação por essa yoga coreana que apesar de ter me arrancado completamente da minha zona de conforto, de alguma maneira, me faz voltar toda terça e quinta, mesmo não entendendo patavinas do que é dito, mesmo não conseguindo interagir com os colegas de classe, mesmo não sendo aquele o meu estilo preferido de yoga.

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Quando resolvi usar os limões pra fazer limonada, fui surpreendida com uma belíssima torta de limão (gluten free 😂).

A semana passada foi tão cheia de pequenas coisas boas e não relacionadas que estou até agora incrédula.

Mas nem só de um pedacinho de galho viveu minha semana. Pude descobrir toda uma outra Coréia – que sempre esteve aqui, só que bem longe do meu olhar. Minha nova amiga Bianca, a austríaca, me apresentou a Coréia coreana, aquela dos mercados populares. Prédios inteiros que vendem tecidos, bolsas de couro, sapatos de todos os tipos (nunca, nunca, nunca vi tantos sapatos juntos. Andares e mais andares só de sapatos), roupas… Tanta, mas tanta coisa que fiquei overwhelmed, parecia que eu estava no eBay/Gmarket/AliExpress real – e na verdade estava, rs. Uma rua que vende plantas, flores, temperos e verduras plantadas, uma outra que vende réplicas de cadeiras (a preço de banana), outra de luminárias (e eu indo à Ikea, rs)… andares inteiros dedicados a crafts. Um mundo novo se abriu para mim – ou será que abri meus olhos para o mundo a minha volta?

Percorremos ruas diversas e andares de vários prédios, conversamos muito e descobri que, sim, dá pra ser feliz aqui. Só me faltava isso: ter amigos. Ter pessoas que compartilhassem comigo as dicas preciosas para facilitar minha vida. Não quero comemorar antes da hora, mas algo me diz que tudo será mais fácil daqui pra frente e que, mais do que isso, minha apreciação pela Coréia será outra.

Foi uma tarde e tanto.

Mas nessa semana teve ainda mais.

Teve também uma visita inesperada da vizinha de cima, uma paquistanesa muito simpática que nos trouxe uma sobremesa típica, porque havia feito demais. Conversamos um pouco e marcamos de fazer um jantar para reunir as famílias (ela tem um filho da idade do Nick e uma bebezinha). How nice 🙂

Para encerrar a semana com chave de ouro, esbarramos, casualmente, com uma família brasileira que chegou aqui há 3 semanas. Estávamos entrando num shopping que nunca havíamos ido quando o Mauricio ouviu uma pessoa falando em português (ouvidinho de tuberculoso!) e nós, que “nunca abraçamos brasileiro na rua” (expressão interna), ficamos ali, parados no meio do corredor, batendo papo e trocando telefone com os novos amigos (e, claro, já marcamos um almoço pro próximo fim de semana).

Engraçado como uma coisa boa puxa outra.

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Saímos dali em direção a Itaweon, onde almoçamos um Thai delícia e na sequência demos uma passadinha sem compromisso nos mercados internacionais do bairro – merceariazinhas árabes/paquistanesas que vendem vários produtos internacionais. Achei vários produtos que só encontro no iHerb e outros que nem lá encontro, como canela em pau 🙂 Quase achei também hummus – ando sonhando com hummus – só não comprei porque o pote era gigante e o prazo de validade estava próximo.

No fim do dia, a temperatura estava bem amena e o sol, preparando-se para recolher-se,  mostrou-se redondo, definido, como uma lua laranja. Só as cidades muito poluídas oferecem esse visual 😛

Tentando, mais uma vez, fazer limonada com os limões, parei no meio da travessia para registrar a luz alaranjada que o sol, filtrado pela cortina de poluição, lançava sobre a cidade.

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Desde que chegamos aqui, em agosto do ano passado, esta foi a primeira semana que senti a vida fluir de maneira realmente positiva. Demorou, mas acho que estou começando a me adaptar a Minha Vida Coreana. Finalmente.

고맙습니다

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