Yoga – tô de volta (?)

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Demorou, foi um longo e tenebroso inverno, hibernando em minha bolha, longe da yoga. Eu sempre tinha mil justificativas para não voltar, até que cansei. Cansei de buscar desculpas – ou será que elas acabaram?

Estava eu aqui, de volta das férias no Brasil, encavernada em nosso apê coreano, quase sem contato com o mundo lá fora, sem vida própria durante a semana, sem amigos (ô drama, rs), quando me deu um estalo (mentira, meu marido é que me deu uma chamada): vou encontrar uma Yoga para estrangeiros aqui perto e, quem sabe, de bônus, conhecer gente nova, fazer amizades.

Notem que eu não pensei “vou procurar…”, decidi encontrar. E encontrei.

Não exatamente o tipo de estúdio que eu procurava, mas uma escola de yoga pura, tradicional, ortodoxa (medo), uma yoga que eu não conhecia. Melhor do que nada, pensei. Já já eu conto os detalhes.

Acabei de voltar da aula (sim, comecei numa sexta-feira – mais emblemático do que isso não existe) e se você me perguntar se eu gostei, desculpa, não saberei dizer. Não ainda.  Entretanto, me matriculei, comprei e vesti a camisa (literalmente) e pelo próximo mês, pelo menos, tenho meu locker reservado no vestiário. O plano, a princípio, é ir duas vezes na semana. Se eu sentir que deu liga, no próximo mês passo a três.  Caso contrário, começo a procurar outro lugar, ou então jogo a toalha e procuro um studio de jazz 😛 Vamos ver.

Por enquanto, tudo o que consigo dizer é que foi uma primeira experiência bem interessante e completamente diferente do que eu estava acostumada. Teve um quê de choque cultural e de “concentra pra não rir, concentra pra não rir” – aliás, entrei no túnel do tempo, tive um mini-flashback do curso de grávidas que eu e Mauricio atendemos em Bloomington, quando o Vivi ainda residia na minha pança. Curso esse que não terminamos, não conseguimos, foi demais pra gente. Abandonamos na oitava aula, quando a professora pediu que levássemos um teddy ou uma boneca para a aula seguinte. Não rolou.

Enfim, só mencionei esse curso, porque logo no primeiro dia, durante um exercício engraçadíssimo de respiração, eu e o marido tivemos uma crise incontrolável de riso e, por conta disso, ficamos conhecidos naquela pequena cidade.

Hoje, agradeci aos céus pelo Mauricio não estar comigo naquela aula. Nem a minha irmã. Nem a minha mãe. Porque eu certamente teria tido outra crise de riso.

Mas vamos ao relato sobre meu primeiro dia de Yoga.

Primeira parte: Encontrando o lugar

Não sei porque, mas aqui na Coréia o endereço é passado de uma forma esquisita. O nome do prédio é muito importante (mas não pra você que não sabe ler em Coreano), o número nem tanto. Ninguém te diz, moro na rua Zé da Couves, 137, apt 302, Bairro das Garças. Em vez disso, eles dizem que moram no Bairro das Garças, na altura das ruas x e y, no prédio Portal do Sol, que fica ao lado da Paris Baguete, ou a 200m da saída 8 do metrô 😛

Claro que assim o Google maps não te leva até lá.

Ai, você pergunta, mas qual o endereço, endereço mesmo (rua, número, andar…).

Opa, agora sim, o Google sabe onde é!

Só que chegando lá, você não encontra o número. Aliás, só pra deixar mais complicado, o nome da rua que te deram não é o nome que aparece no Google.

Anyway, foi mais ou menos isso que aconteceu conosco (sim, no plural, porque o marido, para ter certeza que eu não fugiria do compromisso, me levou pela mão até a porta, rs). Quando chegamos perto do local indicado no mapa, não encontramos o prédio. Aíiiii, maridinho ligou pra lá pra saber onde era exatamente. Neste momento, confirmamos e esperado: o inglês da pessoa era bem limitado. Conversa, vai, conversa vem, finalmente encontramos o prédio. Mas entre chegar e encontrar o local, foram bem uns 10 minutos.

Segunda parte: A matrícula

Me despedi do marido, subi as escadas até o terceiro andar, tirei minhas botas e entrei no estúdio. Fui decidida a começar hoje mesmo, disposta a ir duas vezes por semana. De verdade. Bom, daquele jeito, né? Deu dor de barriga hoje, fiquei gripada ontem, mesntruação tá pra chegar… Pois é, mas aqui a história é outra e a mocinha foi bem clara: “É importante que, especialmente no primeiro mês, você não perca nenhuma aula.”

Em poucos minutos de conversa já deu pra notar que eles levam a yoga muito, muito, muito a sério aqui. Não é um “vou quando der”, é um compromisso, uma religião.

No ato da matrícula, escolhi os dias e o horário das aulas e adquiri a camiseta feinha que dói (aquisição obrigatória), que devo utilizar em todas as aulas. Somos um exército yogi. Nada de leggings coloridas,  tops moderninhos, nem pulseirinhas. Você deve vestir a blusa e uma calça larguinha e confortável (sim, daquelas que eu não uso nem para atender à porta de casa), afinal, yoga não é modinha. Colares, brincos e anéis também são desencorajados (para não dizer proibidos).

Me deram também uma brochura com informações importantes sobre o guru fundador do estúdio e sobre a importância da prática da Yoga ortodoxa (medo).

Me deram uma sacolinha-cubo contendo o uniforme e o strap e me conduziram até o vestiário para que eu me trocasse.

Tudo muito metódico.

Terceira parte: A aula

Gente, a aula.

Entrei na sala, peguei o toalhão (cobertor), o almofadão e, com uma outra toalha em mãos e meu strap, fui em direção ao tapetinho que estava vazio. Forrei o tapetinho com a toalha menor, conforme fui instruída e sentei-me. Sentei nos fundos, ninguém se virou para me olhar/cumprimentar. Calados estavam, calados permaneceram.

Com exceção de um rapaz que estava num cantinho lá na frente, éramos todas mulheres. Eu, a única não coreana.

Havia um tablado vazio lá na frente, imaginei que fosse ser ocupado pelo instrutor, mas de repente, uma voz começa a dar instruções. EM COREANO. Num primeiro momento, achei que estivesse vindo do rapaz no canto lá na frente, mas não era possível, a voz era bem alta e era difícil identificar de onde ela vinha. Não demorou para que a instrutora aparecesse e se instalasse no tablado. A voz que eu estava ouvindo era uma gravação (absurdamente nítida) do guru. A instrutora não abriu a boca a aula praticamente inteira.
Ninguém olha pros lados, ninguém se fala, ninguém troca sorrisos. Yoga é coisa muito séria por aqui. Literalmente.

Pausa para entrar na memory lane: ah que saudade das minhas aulas cheias de energia  e bom humor com a Lisa e com a Yenny. Eu era feliz e sabia disso.

Voltando à aula…

Eu não sabia disso, mas atendi uma aula de yoga Raja  + Mantra, ou seja, não era beeeem o que eu tinha em mente. Muitos mantras, meditação, barulhos estranhos, tapas na cara e caretas. Tive que me controlar horrores pra não ter um acesso de riso.

As poses mesmo não foram muitas e apesar de exigirem bastante flexibilidade, não foi um grande esforço. Algumas poucas vezes, a instrutora se aproximou de mim para dar toques clássicos do tipo “estique mais a coluna e as pernas quando expirar”. Mas foi só isso.

O que mais me incomodou foi não entender nada. Nas horas que todos estavam de olhos fechados, eu ficava tensa, de olhos abertos para saber o que deveria fazer depois. Definitivamente não saí de lá nem um pouco relaxada.

Mais uma pausa: uma das coisas que eu mais gostava nas aulas de Yoga da Lisa era a imprevisibilidade, o mix and match das poses. Parecia tão natural, fluía tão bem. Mas aparentemente esse método é super criticado pelos ortodoxos. Sem surpresas, né?

Enfim, a aula foi. Foi o que? Sei lá. Estranha. Gostar, gostar eu não gostei, mas tô precisando e aparentemente não é fácil encontrar um estúdio de Yoga em que um estrangeiro consiga se matricular sem falar patavinas de coreano, e eu falo exatamente isso: patavinas.

Mas tem mais! Ao final da aula, dobrei o cobertor e comecei a enrolar o tapete quando a instrutora veio se aproximando de mim: “você dobrou a toalha de maneira errada”.

Oi? – achei que fosse pegadinha.

Acreditem, tive que desdobrar a toalha, e, seguindo suas instruções, dobrar novamente.

E antes que eu começasse a enrolar o tapete, ela me explicou como deveria ser feito:

“Você enrola um pouco, enquanto inspira e ao expirar, você puxa em sua direção. Vai repetindo a sequência até terminar de enrolar.”

Sentiu o drama?

Quarta parte: após a aula

Aula encerrada, fui me trocar. Ao sair do vestiário, ela me ofereceu um home made herbal tea, dizendo que sempre que eu terminar uma aula de yoga, preciso manter meu corpo aquecido bebendo um chá ou uma água quentinha.

Enquanto eu tomava o chá, ela me deu vários trechos de um livro para ler. Alguns falavam sobre a metodologia deles, outros sobre o guru, outros sobre o estilo que havia praticado hoje.

Saí de lá com uma lista de palavras que preciso aprender em coreano para as aulas. Sabe-se lá quanto tempo vou levar para memorizar tudo aquilo!

Quinta e última parte: voltando pra casa

Olha, acho que a melhor parte do meu dia vou a volta pra casa, quando, pela primeira vez, peguei um ônibus sozinha em terras coreanas 🙂 Me senti tão livre, tão independente, tão normal. No caminho para o ponto do ônibus, quase parei na quitanda para comprar umas verduras, mas como que ônibus estava chegando e tava super frio, deixei para a próxima.

Se eu conseguir seguir nessa yoga, durante a primavera poderei passear bastante pela região. Por enquanto, acho que será esta minha motivação para sair de casa e enfrentar a prática ortodoxa.

Mas não me precipitarei, na terça, a aula será diferente. Vejamos se é mais parecida com o que me é familiar.


Atualização 07/02/17: Fui a minha segunda aula (Hatha) e… desconfio que só ficarei lá este mês mesmo 😦 O ambiente é muito diferente do que eu estou acostumada. Frio. Silencioso. O staff é todo muito gentil, mas ninguém se fala, se olha,  se cumprimenta… Ninguém troca sorrisos. É inevitável comparar com a Yoga que eu praticava na Austrália, onde eu era recebida com um sorriso caloroso, um abraço… batia um papinho antes da aula e sempre dava risadas (muitas vezes por causa da dificuldade em executar a pose) no decorrer dela.

Mas ó, ainda que essa primeira tentativa não dê certo, eu não vou desistir! Ei de encontrar uma atividade bacana, ainda que não seja Yoga.

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