Sobre a vida

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No início desta semana, eu voltei ao meu projeto gluten free, lactose free e kind of sugar free, porque desde que chegamos na Coréia, minha alimentação vem descendo a ladeira de tamanco e com a lata d’água na cabeça.

“Mas por que, Erica? Logo agora que você conseguiu recuperar uns 2 quilinhos?”

Porque sim, faz-se necessário. Meu corpo estava pedindo, implorando. Impressionante como comer coisas que eu gosto me faz sentir mal. Dor de cabeça, boca e olhos mais secos, estômago inchado, mal funcionamento do intestino… só pra citar alguns.

Além disso, ainda tem o agravante do vício. Açúcar vicia, eu sou viciada em açúcar e há um ano venho aprendendo a controlar o vício. Como? Retirando o trigo da minha vida.

Quando passo uns dias sem comer trigo e reduzo o consumo de carboidrato, minha gana por doce reduz sensivelmente. Não tenho ímpetos de comer doce no fim do dia e com isso, reduzo o consumo de açúcar àquele que existe nas frutas frescas, o que é super importante já que eu tenho uma predisposição a ser diabética (isso pra não falar que o açúcar agrava a secura da minha boca). Ou seja, é  ganha-ganha.

O leite de vaca é um capítulo à parte. Nem eu, nem você, nem ninguém deveria tomar. Pareço fanática falando isso, né? Mas é verdade. Se há 10 anos, eu tivesse aceitado o conhecimento que tenho hoje, teria tido gestações bem mais saudáveis, partos bem mais tranquilos e, mais importante, não teria dado chocolate/doce pros meninos tão cedo. Nem sei se o teria feito.

O problema é que aqui na Coréia é difícil pacas achar opções saudáveis, gluten free, lactose free, sugar free… então, não consigo achar um pão do bem (adoro pão), nem fazer as receitas que fazia na Austrália. Difícil.

Sendo assim, faço o que dá: voltei a comprar pouquíssimos industrializados (se dependesse de mim, compraria nenhum, mas não dá para tirar tudo, de uma hora pra outra, dos meninos (nem do marido).

Desde domingo até hoje, estava indo bem com o meu retorno à alimentação do bem, até que eu vejo uma noticia no facebook: uma brasileira (amiga de amigos) que morava em Melbourne, casada com um também brasileiro e mãe de um menino de 7 e uma menina de 4 anos, morreu num acidente horrível e completamente estúpido.

Estava saindo de casa para levar seus filhos ao shopping e enquanto tirava o carro da garagem, de ré, bateu no medido de água. Saiu do carro para verificar o estrago, mas esqueceu de colocar o carro no modo “estacionado”. Ela caiu, o carro andou e ela ficou presa de baixo dele. As crianças assistiram tudo. O filho ainda tentou ligar pro pai, pra emergência, mas ela morreu. Ali na frente deles. Ela tinha 32 anos.

Essa notícia horrível me causou uma angústia enorme, um aperto no peito sem tamanho e uma única certeza: a vida é frágil e a gente nunca sabe quando ela vai acabar.

Pode ser daqui a 50 anos, ou 5 minutos. Meu avô, cheio de saúde, super ativo, tinha blog e conta no Facebook, morreu no caminho da sala para a cozinha para tomar seu leitinho antes de deitar. Assim, desligou-se da tomada, aos 82 anos.

Nunca soube lidar com perdas, acho que nunca saberei, mas a verdade é que a única coisa certa nessa vida é que, quando chega a hora, ela acaba. E comprovar a fragilidade dela mais uma vez, com uma história tão estúpida, tão trágica, me fez reavaliar muita coisa.

Há coisas na minha vida que eu queria que estivesse diferente? Sim. E não vou dizer que me conformarei com elas do jeito que estão, não é isso. Mas vou parar de sofrer com isso. Como meu pai sempre diz, a gente só deve se preocupar em resolver o que pode ser resolvido e nem tudo pode ser resolvido de uma vez, ou sem quebrar ovos, ou no momento presente.

“Peraí, Erica, você tá dizendo que essa tragédia horrível te fez decidir que vai, sim, comer chocolate?”

Mais ou menos. O que eu quero dizer é que eu decidi sorver a minha vida, aproveitar ainda mais o tempo com minha família sem culpas nem frustrações, não ficar presa ao que podia ter sido se eu eu tivesse feito isso ou aquilo de maneira diferente e, sim, vou comer chocolate, queijo e tomar meu chai latte. Muito de vez em quando, mas vou.

Continuarei mandando vegetais e frutas pro lanche das crianças na escola, em vez de Oreo e sanduíche de presunto. Continuarei limitando o tempo nos eletrônicos às manhãs de sábado e maybe, duas horinhas no domingo. Continuarei brigando com os meninos quando eles se comportarem mal e continuarei ficando triste quando alguma coisa não sair como planejei. Mas, acima de tudo, estou hoje assumindo o compromisso de pegar leve comigo mesma e não deixar que meus pensamentos, arrependimentos, culpas e situações mal resolvidas tirem o meu sono, tampouco me atrapalhem a desfrutar dos meus dias.

Quero viver plena e ter sempre ativada a consciência de que a vida de todos nós é frágil como um fiapo de algodão ao vento e pode ser levada a qualquer momento para outro plano.

Ainda que tardia, fica aqui a minha resolução de Ano Novo: viver o agora, com responsabilidade, sim, mas sem extremismos que me tirem o prazer das pequenas coisas, sem me deixar dominar por nenhuma frustração, sem privar meus filhos do donut da sexta-feira e sem fazer planos de longo prazo que sacrifiquem coisas importantes no presente.

Ah, para celebrar, hoje à noite, junto com meu chazinho de hortelã, comi quase 100g de mini biscoitinhos (gluten free, para não passar mal) daqueles caseiros recheados com goiabada. Posso lhes garantir que fiquei feliz 🙂

Amanhã temos um jantar na casa do nosso amigo italiano. Ele sempre faz macarrão. Ainda  não sei como farei, porque apesar de eu gostar de macarrão, não me cai nada bem. E não é como se eu ficasse muito feliz após comer uma macarronada, então não é o tipo da coisa pela qual valha a pena sair da linha… Depois eu conto como foi.


Detalhe: os quilinhos que ganhei no Brasil, foram resultado não somente da comidinha excessiva da mamãe, confesso. Tomei muitos baldes de milkshake de ovomaltine no Bob’s, comi coxinha, pão de queijo, cookie, pudim, torta de chocolate da infância, rabanada e tudo mais que não comia desde que resolvi aderir à alimentação saudável. Ou seja, fiz tudo errado, ganhei peso de maneira errada, meus preciosos quilinhos extra que me tiraram do estado caveira, são quilos do mal, do açúcar, do trigo, da gordura, do leite. Mas não há de ser nada, ei de mantê-los com uma alimentação do bem. Ou quase.

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