Ataque de tristeza

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Às vesperas de voltarmos pra casa, Nickito teve uma crise horrorosa, uma crise de nervos, de ansiedade, uma crise de tristeza que me desesperou e partiu meu coração.

Era tarde da noite, umas 11, eu acho. Nickito começou a dizer que queria que a vida dele acabasse, que tava demorando muito essa vida, que ele não aguentava mais. Conforme falava, chorava desesperado, de soluçar. Esboçava uma tristeza tão profunda, um desespero, que suas palavras ecoavam pelo quarto e dentro da minha cabeça.

Eu perguntava o porquê daquilo e ele só dizia que eu não ia entender, porque era muito difícil explicar. Dormiu comigo, segurando forte minha mão, quando já estava sem forças de tanto chorar.

Eu permaneci acordada por horas, tentando compreender o motivo daquele episódio.

Na manhã seguinte, conversei longamente com ele e finalmente, mais descansado (porém, ainda triste), Nickito conseguiu me explicar o que se passava. Disse que um dos motivos era que não aguentava mais essa vida que ele leva (acho que sem raízes).

“Nossa família mora aqui no Brasil e a gente tem nossa vida, só nós 4, longe daqui.. . demora muito pra chegar aqui, pra vir pra cá. Tô cansado disso, dessa vida. Não quero mais, quero acabar com ela.”

E pôs-se a chorar novamente.

Sensação de impotência define.

O pobrezinho estava descontrolado, mal sabia descrever seus sentimentos 😦

E a culpa que se abateu sobre mim? Afinal, a vidinha dele só é assim, por causa das nossas escolhas. Esse vai e vem, essa vida sem raízes, longe do ninho, da família… essa vida sem uma base fixa, definitivamente, não é pra qualquer um. Nem todo mundo sabe lidar com a distância, com a falta dos avós, tios, primos. Nem todo mundo se adapta a isso. De verdade, até hoje eu não me adaptei.

Nickito sente muita falta da interação familiar, sempre fala do pessoal do Brasil e, mais, faz questão de incluir todo mundo em seus desenhos e historinhas. Na escola, a professora já está acostumada a ver a família reunida nos desenhos dele.

Para agravar um pouco mais a situação, além do Brasil que guarda sua família de sangue, Nickito sente muita falta da sua vida na Austrália e dos amigos, primos e tios postiços, que faziam parte do seu dia a dia. E isso também veio à tona durante nossa conversa. Ele pediu com muita emoção que voltássemos pra Austrália, ou que, pelo menos fôssemos lá a passeio, por duas semaninhas que fossem. Ele quer rever os amigos, ir à escola… pediu até pra ir às aulas de Karate 😦

Notem que ele não quer ir à Austrália para passear, mas para reviver sua rotina. Difícil, viu?

Durante nossas férias no Brasil, além de estar 100% do tempo com a família, encontramos também nossos amigos da Austrália, o que apesar de ter sido ótimo e te-los deixado numa alegria enorme, fez acordar esse pedacinho da vida, das lembranças que estavam adormecidas.

Nunca imaginei que passados 6 meses o Nickito ainda fosse estar tão homesick. Mas o fato é que está. E pra ser sincera, é bem compreensível (até eu ainda estou!), já que não temos aqui a estrutura social que tínhamos lá. Nos falta interação, nos falta amigos. Estamos exilados dentro da nossa bolha particular, fazemos tudo, absolutamente tudo à 4. Mas o Nickito sente tanta falta de ter pessoas pairando em volta, fazendo parte do nosso dia a dia, da nossa família, que já até disse que ta com saudade de ir na churrascaria brasileira daqui, não por causa da comida, mas porque tá com saudade dos donos, dois brasileiros, segundo ele “muito legais!”. Nickito, definitivamente, está “contratando” tios e tias para o seu convívio. Este é o nível de carência do nosso pequeno.

Mas o que eu posso fazer para ampara-lo? O que pode ser feito para amenizar essa dor, para preencher esse vazio?

Conversar eu converso muito. Falo, pergunto, explico. Mas isso é pouco, é quase nada diante desse tsunami de sentimentos que ataca a mente e a alma desse serzinho ainda tão pequenino.

Desde que chegamos de volta, ele está sob controle (atribuo muito disso à fórmula que ele está tomando). Não deu nenhum ataque (nem de tristeza, nem daqueles de fúria que teve durante todo o ano passado), muito embora tenha expressado claramente seu desejo de voltar pro Brasil e de ir à Austrália.

Ai, gente, dureza, viu? E o pior é que até para encontrar um terapeuta infantil aqui é difícil 😦

Vamos ver como as coisas se desenrolam. No momento, o que posso fazer é dar toda atenção possível e ficar de olho nas mudanças de humor/comportamento.

Oremos pelo melhor, sempre.


Atualização (26/01/17): Inacreditável, mas ontem à noite, Nickito veio novamente falar do desejo de acabar com essa vida 😦 Acrescentou ainda que são muitas coisas, que é muito difícil explicar.

Ele diz que gosta da vida dele, que não quer morrer, mas que quer acabar com essa vida, porque está demorando muito. Se é confuso para mim, imagina para ele? 😦

Mas vamo que vamo, um dia de cada vez.

 

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