As tristezas de Vivi (e da mamãe do Vivi)

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Pior do que sentir tristeza só mesmo ver um filho seu triste.

Vivi anda tristonho, não o tempo todo, não durante o dia, mas conforme vai chegando a hora de dormir, quando já está deitado na cama pronto para o abraço de boa noite, ele fica pensativo, quer conversar.

Conversamos quase toda noite e ele está sempre com uma certa tristeza na voz, uma tristeza de quem deixou algo muito importante para trás, uma tristeza daquelas que a gente sente quando sabe que não vai, nunca mais, ver alguém muito querido. Uma tristeza chamada saudade.

Ele, mais do que ninguém, está sentindo muita falta da nossa vida australiana, da nossa vidinha local e suburbana, perto da escola, do cinema, do mercado, do parquinho, da praia, dos inúmeros parques, dos amigos, dos play dates, dos vizinhos. Saudades de poder pegar a bicicleta e sair pedalando pela rua sem carros, saudade da liberdade, do domínio completo da língua, de poder falar com as pessoas na rua, no mercado, saudade de ser engraçado em qualquer lugar, saudade da escola, da casa espaçosa e do estilo de vida a que estava acostumado.

“Será que um dia a minha escola aqui será como a Cheltenham Primary?”

“Será que um dia nossa vida aqui será como nossa vida na Austrália?””

“Eu não sei explicar, a vida aqui tá boa, eu tenho amigos, eu gosto da escola, mas eu gostava mais da minha vida lá…”

Estas são apenas algumas das perguntas e declarações que eu ouço quase que diariamente. Dói fundo viu?

Quase toda noite, ele chora um choro que mistura verdade e drama (drama este que nada mais é do que a verdade acentuada) e eu sinto seu choro como uma facada de culpa no meu coração, mas fazer o quê se chega um momento na vida em que precisamos fazer escolhas mais responsáveis, pensando não somente no hoje e no amanhã, mas no futuro mesmo?

Sair da Austrália foi inevitável. Eu não estava preparada, as crianças também não, mas foi preciso. Minha vontade é voltar pra lá, porque é lá onde me sinto em casa, é lá, naquele Brasil que deu certo que vejo o pacote da vida feliz. Só que aquela vida feliz era uma vida do hoje, do amanhã e, infelizmente, chega uma hora em que temos que pensar mais adiante.

Toda noite, antes de dormir, eu peço forças para não apenas me adaptar logo à vida aqui, como para ajudar meus pequenos a superar essa saudade que dói, porque hoje enxergo a verdade e a verdade é que dificilmente voltaremos para a Austrália nos próximos anos.

Por enquanto, eu sigo um dia de cada vez, focando nas coisas positivas, mas o fato de estarmos bem isolados dificulta bastante o processo de auto-convencimento de que fizemos a escolha certa. No fundo, eu sei que fizemos, mas no dia a dia, ainda tá brabo. E o pior é que não tá brabo só pra mim 😦

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