Sangue nos olhos

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Hoje à tarde, assim que os meninos desceram do ônibus escolar, Vivi, com o semblante mais triste do mundo, me pediu: Mamãe, por favor, eu não quero mais ir pra esse colégio!

Eu, muito surpresa, logo questionei: Por que isso, meu filho? Até ontem você estava adorando a escola, estava cheio de amigos…

Ele: hoje foi the worst day ever! Aconteceu uma coisa que me fez chorar muito.

(e neste momento, comecei a me transformar na leoa-mãe que ataca o problema na jugular).

Eu: me conta o que aconteceu?

E ele me contou  mais ou menos assim:

“Eu estava na aula de educação física brincando de pega-pega com meus amigos, quando de repente todos eles me cercaram e eu fiquei encurralado, aí eu gritei “oh my God!”. Na mesma hora, o professor me perguntou “o que você falou?”, aí eu respondi öh my God”. Ele disse: “oh my what?”, E eu repeti “God”. Todo mundo tava me olhando. Mamãe eu não tava entendendo nada, mas aí o Mr. Flores começou a brigar comigo, dizendo que isso era muito errado, que era um desrespeito com Deus, que eu não devia nunca mais falar isso e me mandou pedir desculpa pra Deus. Eu pedi e comecei a chorar. Ele disse que aquilo era grave e que teria que contar para a minha professora, aí eu fiquei desesperado e não conseguia mais parar de chorar. O Mr. Flores então disse que se eu parasse de chorar, não contaria para minha professora. Eu parei.

Mais tarde quando voltei pra sala de aula, cruzei com ele no corredor, vindo da minha sala. Quando eu entrei, minha professora me perguntou se eu estava OK. Eu disse que sim e perguntei porquê. Ela disse que tinha ouvido falar do que aconteceu na aula de educação física e me disse que eu não estava em trouble, que ela entendia que esta era minha primeira vez numa escola cristã… Ela me explicou que os cristãos não usam o nome de Deus assim. Ela foi very nice, mas eu fiquei muito triste porque o Mr. Flores disse que não ia contar e contou, ele me traiu. Primeiro me humilhou, depois mentiu pra mim, me traiu.”

Conforme o Vivi ia me contando o que havia acontecido e como o tal professor conduziu a situação, meu sangue latino foi fervendo, fui ficando roxa, com sangue nos olhos. Não fosse a escola tão longe, eu teria pegado um ônibus naquele instante com os dois e voltado à escola para pular no pescoço do tal do Mr. Flores. Ainda bem que a escola é longe, porque, né? eu perderia completamente a razão.

Como, meu Deus (e olha eu aqui, não só falando, mas escrevendo o santo nome de Deus “em vão”), um ser humano que se diz cristão e educador trata um episódio com esse desta maneira bossal e medieval?

Que tipo de educador expõe o “erro” de uma criança na frente dos coleguinhas, repreende e o faz sentir-se humilhado. Que tipo de cristão mente descaradamente, dizendo que não vai fazer uma coisa e faz logo em seguida. Que exemplo este ser humano está dando para as crianças? Que mensagem ele está passando como educador? Que não se pode falar o nome de Deus em vão, mas humilhar o outro e trair a confiança tá beleza?

Eu tô é passada, viu?

Estudei a maior parte da minha vida em colégio de freiras. Dos 3 aos 15 anos, rezava todos os dias, muita vezes chegava mais cedo ao colégio só para assistir a missa da manhã com as madres, fazia aulas de religião, ia a retiro espiritual e sabia todas as músicas de cor e salteado e nunca, nunquinha fui humilhada por dizer “ai meu Deus”, tampouco fui repreendida por cantar as músicas tradicionais em versões alternativas com batuque de samba. Sinceramente, muito me surpreende que as freiras, já senhoras nas décadas de 80 e 90 tivessem mais tato para conduzir questões assim do que um cara nos seus early thirties, em pleno 2016.

Essas intolerâncias bestas me tiram do sério, ainda mais quando vem acompanhadas de  incoerências.

Quando matriculamos os meninos nesta escola, não sabíamos que se tratava de uma escola cristã, tampouco tão radical. Achamos interessante eles terem a opção de aulas religiosas e quisemos que os meninos participassem, porque embora não sejamos religiosos (apesar de termos estudado em escolas católicas), achamos importante eles terem contato com uma religião. O que não sabíamos é que seria um esquema quase “militar” de “pode- isso-não-pode-aquilo”, de proibições e, pior, de repreensões exageradas.

Tipo, não me entenda mal, nem eu, nem meu marido somos do tipo de pais que acham que seus filhos são perfeitos. A gente sabe das falhas de cada um, sabe muito bem que eles não são fáceis em muitos aspectos e nós somos até bem rígidos, não damos moleza, tampouco mimamos ou bancamos os superprotetores. Mas pra tudo há limite. Não venha humilhar meu filho e fazê-lo chorar em frente da turma, não venha dar lição de moral cristã, se você não aplica os conceitos a sua vida, se não se comporta com o amor e a compaixão necessária para educar uma criança.

Muito me impressiona como pessoas religiosas, pessoas “de Deus”, possam ser tão intolerantes com crenças diferentes das delas. Onde está o respeito ao próximo?

Sinceramente, eu, apesar de acreditar em Deus, não me intitulo cristã, nem católica, mas teria mais tato do que o tal do Mr. Flores para conduzir a situação. Mas é isso aí, existem cristãos e cristãos. Só não venha cantar de bom cristão, se suas atitudes não condizem com o título.

Pra ser bem sincera, para mim, uma pessoa que não acredita em Deus, mas que faz o bem e trata o próximo com respeito e amor, pelo simples fato de julgar que é o correto, tem muito, muito mais valor do que um religioso fervoroso que anda na linha (às vezes torta) porque tem que andar, porque Deus assim disse, um religioso que segue a cartilha para ir pro Paraíso, mas não sabe o verdadeiro significado da palavra compaixão, especialmente quando se está educando o futuro deste mundo.

Bom, mandamos um email para a diretora contando sobre o ocorrido. Vamos ver qual será a resposta. Até lá, sigo indignada e engasgada.

 

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